domingo, 8 de fevereiro de 2009
Alice e os gatos
Não conseguia dormir com eles, mas não conseguia dizer-lhes para se irem embora. E os desgraçados, encolhidos por causa do frio, ficavam no sofá, com uma reles manta a fazer de lençol, de edredon e de colcha. Alice trazia sempre um amigo para ficar lá em casa depois de um noitada. As restantes residentes, todas elas estagiárias como ela, divertiam-se à grande com aquilo. No sábado de manhã, iam com cuidado espreitar à porta na tentativa de verem quem estaria no sofá. Alguns "gatos", como lhes começaram a chamar, também se escapavam noite dentro: assim que o efeito do alcóol se ia, iam-se também. O metro ficava perto. Mas num sábado como outro qualquer, quem não estava em casa, na sua cama, era Alice. Quando chegou, às quatro da tarde, teve de se justificar. Foi bombardeada com perguntas. Com ar cansado, recusou-se a dar grandes explicações. Sempre teve a sensação que só a percebiam pela metade. Limitou-se a dizer: "Dormi em casa do Miguel, no sofá dele. E a meio da noite ele veio ter comigo".
domingo, 25 de janeiro de 2009
Uma prenda
Eu gosto mesmo muito dele. E não é por ele ser seguro. É por corar e ficar cabisbaixo logo que deixa de falar comigo. Eu sei que o transporto para outra dimensão. Ele comigo, revela-se humorado e aventureiro. Contou-me que colecciona histórias para me contar. Eu dou-lhe pontos. E as mais votadas são lidas ao domingo de manhã. Como se fossem a nossa missa conjugal. Com ele, não tenho medo de ser despedida ou de ter cancro da mama. Quando estou com ele, estou sempre entretida. Apetece-me fazer bolos e manter aquele cheiro enquanto nos enrolamos na cama. Passámos o fim de semana em casa e foi como se tivessemos feito uma viagem. Mesmo aquela sensação que se tem do regresso foi igual. Trazia uma compensação qualquer comigo. Uma prenda para guardar muito bem. Quando me deitei sozinha, na minha cama, virei-me para a janela que fica para o lado da casa dele e deixei-me adormecer assim. Mas, atenção, as histórias que me conta são tudo menos leves, como nós. São estranhas, entroncadas e dramáticas. Mas enfim, no Carnaval, vestimo-nos de pássaros.
A mulher invisível
Tinha uma nódoa na camisola. Foi tirá-la. Mas sobrou a vontade irresistível de voltar a vesti-la. Como se fosse a peça mais certa para aquele dia chuvoso. Lavou-a, secou-a, passou-a. Noutros tempos, não teria importância. Enquanto Felismina contava o episódio insignificante, Alice ia somando pontos na sua preocupação. Felismina chegou a dizer-lhe que deixou de ir à praia por ter começado a implicar com o mar. Faz muito barulho, não sosseja, justificou. Está a mudar a Felismina, pensou. Todos lhe sugaram energia e boa vontade e ela foi-se apagando aos olhos de toda a gente. Lembrou-se de um dia a sua avó lhe falar de uma tia solteira que tinha esses poderes: estava sem se dar conta dela. Viveu assim muitos anos, até fugir para o Brasil. Alice ia juntando explicações como se de uma demonstração power point se tratasse. Deixou-a falar, falar. Por fim, disse à amiga: "Se és invisível, tira ao menos algum partido disso, por favor! Descansa."
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Intervalos
Pedro gosta mais de mim nos intervalos das relações que vai tendo e fui-me habituando a isso. Se me convida para um café ao sábado, já sei do que tratará a nossa conversa. Mais uma namorada, amiga ou lá o que seja que está a deixar de lhe dar pica. Curiosamente, nunca há uma razão sexual para o afastamento, o que sempre me fez crer que ele não seria muito exigente nessa área. Pelo contrário, o que mais o arrelia, por regra, são as conversas chatas. "Pode-se não falar de nada novo, não é isso", insiste em explicar, mas há coisas que o incomodam. Como por exemplo? Gastar meia hora a falar da colega de trabalho que teve um filho. Como conversa chata puxa conversa chata, os diálogos vão se tornando monólogos e ele começa a desinteressar-se. Um dia contou-me que a Joana se tinha transfigurado à sua frente enquanto falava, falava. De repente, viu um monstro na sua cara. Os olhos desapareceram e no lugar do nariz estava uma tromba. Naquele dia, a história tinha uma nova coordenada: "A Elsa traz brinde". "What?", perguntei?. Tem um filho de três anos e não me apetece andar com o filho.
Olho azul
Abri-a bem olho e quanto mais o fazia, mas crescia o seu espanto. O espelho dizia-lhe que tinha um olho azul. Apenas um olho azul. O outro estava igual ao que sempre foi: castanho cor de castanha. Demorou alguns minutos até conseguir encontrar uma explicação. Afinal, no dia anterior tinha dois olhos normais. Tinha dormido sozinha, com lençóis lavados, é certo, a última refeição não incluiu nenhuma iguaria excepcional - voltou a comer queijo fresco com salmão fumado, sobre o qual espremeu um limão. Estaria com o tumor e ver mal por causa disso. Morrer com um cancro na cabeça seria o seu destino? Que fatalidade! Mas isso só acontece aos outros e não a ela, uma pessoa normal, que nunca foi além de uma gripe, curada em três dias. Só podia ser uma doença grave! O que mais podia ser, ia-se perguntando. Quando saiu de casa, perguntou à primeira pessoa, uma velhota que passou: "Desculpe, pode ajudar-me? Repare no meu olho. De que cor é?". Fechou ligeiramente as pálpebras para se fixar bem e respondeu: "Castanho". Atirei logo: "E o outro?". "Azul, é azul", respondeu. "Como pode ser, ontem tinha dois olhos castanhos", disse-lhe. Com ar rezingão, barafustou: "E ainda reclama. Quem me dera ter pelo menos um azul".
domingo, 4 de janeiro de 2009
Enganos
Enganou-se no autocarro. Quando reparou que aquela era a Avenida de República, foi rapidamente ter com o motorista perguntar-lhe que trajecto era aquele. Afinal, estava no 32 e não no 22, que costuma deixá-la na João XXI. Ficou na paragem seguinte, ao pé do Campo Pequeno. Como estava a chover, entrou no que é um centro comercial, paredes meias com a praça de Touros. Estava esganada de fome. Pôs-se à procura do espaço para refeições. Mas antes de o encontrar, viu uma cara familiar. Sabia que a conhecia mas não sabia exactamente de onde. Resolveu segui-la. Fingiu ver a montra que precedia a que este via. Passado uma boa meia-hora, aproveitou o facto de este mudar de corredor para o confrontar: "Olá. Eu conheço-o, não conheço?". Por mais voltas que dê, não percebe o que a levou a fazer aquilo. Saiu-lhe. Mais espantosa foi a resposta dele: "Não sei. Estou perdido".
Tão simples
João não resistiu a ouvir a conversa do lado. Falavam alto. A rapariga de cabelos lisos dizia que adorava fazer pão para o namorado. Que tinha sido assim que a sua relação tinha começado. A mais ruiva analisava cada frase como se fosse especialista em comportamento: "Quando se faz alguma coisa por alguém, esse bem é devolvido, e o amor pode ser isso, é pôr a funcionar essa ponte, tirar-lhe as portagens!". A criatura mais baixa, que não conseguia perceber se era rapaz ou rapariga, gozava: "Lá estás tu, sabes tudo!". Ainda lhes disse: "Pareces a minha sobrinha de quatro anos que tem sempre uma última palavra a dizer". "Ok, fiz-lhe pão e ele gostou, mas não foi só isso, damo-nos muito bem na cama". Foi quando passaram para este nível que a conversa se tornou irresistível. "No resto, no dia-a-dia, até acho que somos um pouco disfuncionais. Às vezes, ele não entende o que eu digo e mostra-se desatento, quando explico pela segunda vez. Mas não ligo". Alguém aproveitou um silêncio de três de segundos para perguntar: "Como é? Como é entenderem-se bem na cama?". A resposta foi simples: "Quando se gosta, repete-se".
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Odeio talhos
Rita explicava ao Pedro o motivo da sua ocupação constante. Estava sempre a fazer alguma coisa, a programar o que se seguiria, a planear mesmo o que sabia que não tinha condições para cumprir. Noutros tempos não era assim e sofria. Agora não. Optou por andar distraída. A distracção - agora distração por causa do novo acordo ortográfico, que também muda muitas palavras até aqui com hífen - entretém e evita pensamentos relacionados com a morte. "Estou aqui, mas posso não estar e não estarei qualquer dia", dizia ao Pedro. "Quando olho da janela e procuro céu azul, procuro deitar-me nele, como se tivesse acabado de estender a toalha de praia num dia de sol". Antes não. O azul imenso invadia-lhe o cérebro, fazendo-a pensar em tudo de forma nua e crua. Em poucos segundos, ficava dominada pela tristeza. Evitava as montras de talho, tinha o cuidado de passar para o outro lado quando avistava alguma, pela mesma razão. Carne exposta daquela maneira é pornografia. Agora sim, continuava a contar ao Pedro. Não tinha tempo para depressões. O Pedro perguntou-lhe então: "E não te cansas?". Rita encolheu um pouco os ombros e depois de uma pausa, atirou: "Claro, mas antes cansada que morta".
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Vizinhas
Vinha do hospital de braço dado com o sobrinho. Quase que a Sara tropeçava neles no segundo degrau. Aconteceu quando Sara se viu obrigada a ir a casa à hora de almoço por causa de uma inundação. Lia, a vizinha, regressava à casa de Alvalade para uma estadia curta. Contou que o médico lhe disse que seria no máximo uma semana. Durante esse tempo, teria de aparecer um dador de coração compatível. Mas Lia não parecia dramatizar o que se estava a passar com ela. Falava dos factos com entusiasmo. No encontro com a vizinha de lado, que se deu logo a seguir - as escadas tinham-se tornado a praça pública - dizia que o que mais a chateou no tempo passado na enfermaria não foi a comida, não foi a falta de humor de certos médicos, mas os outros doentes. "Aquelas provincianas que passam o dia a lamentar-se, que estão sempre a queixar-se das dores deram-me cabo dos nervos". Mariazinha, do segundo esquerdo, concordava, acenando com a cabeça para a frente, enquanto, ao mesmo tempo, lançava um sorriso fechado. Bem, o pormenor romântico da história foi o olhar iluminado do sobrinho. Comportou-se como se estivesse a assistir a uma cena de filme. Não disse nada. Manteve-se como observador não participante mesmo quando foi apresentado como sociólogo que se dedica à investigação. Num quadro normal, Sara teria subido às paredes com a ideia dos provincianos, que são quase sempre, os que gostam de chamar aos outros isso mesmo. Neste caso, não. Pensou que a tolerância teria de ser isso. Fez como o sociólogo giro. Ficou muda. Depois, assim que ele bateu a porta, foi à janela para o ver desaparecer na rua. A esquina comeu-o.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Sinto-me com sorte
Reparou que o google dizia "sinto-me com sorte" e pensou que estava a alucinar. Deve ser do xarope forte, composto com ervas de nome esquisito que estava a tomar. Esquisito. Lembrou-se de uma zanga antiga, com um ex-namorado, quando este lhe chamou a atenção que andava a reagir às questões mais difíceis sempre da mesma maneira, dizendo apenas: "Que esquisito". Clicou no sinto-me com sorte para ver o que acontecia e foi encontrar nessa página uma associação chamada UPS. Voltou a fazer enter até descobrir que se tratava de Unidos Pelo Sofá. Faziam parte da associação alguns nomes familiares como José Diogo Quintela, Jacinto Lucas Pires. Hum. Foi procurar o último livro dele e leu a frase que tinha sublinhado: "Subo ao telhado. Se eu amasse alguém, seria assim, por cima da cidade". Voltou à página e procurou contactos. E, sim, tinham sede própria. Ficava na Estefânia. Ligou a uma amiga que morava ali perto para lhe perguntar se a conhecia. Camélia não atendeu. Voltou a insistir e ouviu do outro lado uma voz rouca e encolhida. "Sim, sei o que é, não é nada de especial". Combinaram ir tomar um chá ao UPS. "Daqui a uma hora". Vestiu o seu casaco novo. Olhou-se de lado ao espelho, como faz quando se prepara para algo importante. E lá foi. O portão era grande. Assim que o empurrou, percebeu logo que ia gostar daquele sítio. Parecia um espaço encantado. Sentaram-se com movimentos lentos nos sofás de material gasto e adornado. Virou-se para a Camélia e perguntou: "Porque nunca me falaste disto?". Camélia resmungou: "Sei lá! Isto não tem nada de especial". Foi para casa cabisbaixa. Camélia só tinha queixas para lhe contar. Foram tantas que se cansou com a tareia. Grande chata. Os braços descaíram, o pescoço inclinou-se. Chegou a casa exausta. Ligou o computador e lá estava: sinto-me com sorte. "Estes gajos do google lembram-se de cada uma", pensou.
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