terça-feira, 9 de junho de 2020

mudei de casa

A poesia,
a pausa,
o gozo de estar a observar
a minha rua
depois de a ter deixado
para sempre
porque mudei de casa

calçar as sapatilhas

A poesia,
a poesia ensina-se
a lidar com o visível
que há dentro
de mim
e que torno
invisível a cada dia
que calço as sapatos

Serra de Malcata

A minha filha ouve muito bem,
sai a mim
Ouço cada parcela de vidro
que parte
como se fosse
um predicado de uma frase
forte que se separa do sujeito
Ouço os carros eléctricos
O barulho da lavagem
dos dentes do vizinho
Sei quando cospe
e quando limpa
o rosto à toalha de banho
Já a avisei:
Ouvir bem tem inconvenientes:
aprendemos que ouvir
cada som ínfimo
revela um mundo
composto por mais barulho
do que melodias
e que o ruído sinaliza
obstáculo, perturbação, e ruptura
Quando não ouvi nada
no interior da Serra de Malcata
Não havia pássaros, insectos,
um vento leve que fosse
que abanasse uma folha
Nunca tinha escutado nada assim
Assim não tinha escutado nada
Ainda bem que ela dormia
sossegada
Enquanto eu tenho medo
ela dorme

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

hospital 2

Tinha um cabelo aos caracóis
como outrora foi imagem de marca
do Marco Paulo
uns olhos azuis cintilantes
que não eram bonitos
porque assustavam
assim que nos fixavam
umas mãos fortes e musculadas
de quem trabalhou
com elas e sobre elas a vida toda
e gestos de menino
contido e envergonhado
o Alfredo visitava todos os dias
a senhora da cama do meio


Hospital 1

Todos estão sozinhos
numa cama de hospital
a simpatia dos profissionais
é empacotada
as arrastadeiras
arrastam as mulheres
para o tempo
das trevas
os médicos não se apresentam
e falam pouco
as visitas jeovás
falam muito
e oferecessem-se
para cortar a fruta
A minha fruta,
digo-lhes eu,
corto-a
com os dentes,
não gosto de facas

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

frio

desejo o frio
como desejo as mudanças
assim que vem
divirto-me à brava
com as suas exigências sazonais
desejo o frio
porque
sinto mais com ele o
calor do corpo
do que
sem ele

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

imortal

o teu amor
curou-me
antecipadamente
de todas as depressões
que poderia ter
até ao fim da minha vida


sofá

dor desfeita
aos pedaços,
o meu colo
deixou de ser
o mais que perfeito,
para se transformar
num aconchego
de tranquilidade
transitória,
menos perfeito,
com defeito
resta-me
que o tempo
se desenrole,
passem os dias,
gire a terra,
as manhãs
não
falhem
e todos os dias
venham,
janela a dentro,
espero sentada,
espero sentada
e só queria
poder andar por aí
contigo ao colo

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

espelho

quanto mais falava para dentro
mais se sentia pequenina
de tal forma
encolheu que
quando viu um anão passar
debaixo da sua janela
julgou-o gigante
maior que um poste de luz
da avenida de Roma
e foi aí que resolveu
enfeitar-se

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

uau mama, uau mama

uau mama
uau mama
os braços esticados para trás
a cabeça inclinada para trás
efeito do vento imaginário
correndo em frente sem olhar em volta
pulando como se houvesse pedras
quentes espalhadas por todo o piso
apanha de um super poder
que permite ultrapassar limites físicos
uau mama
uau mama
consigo chegar onde
sempre quis chegar
desde o berço