quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
para a Alice
Alice gostava de estar com o José, apesar da conversa ser fraca. Embora também não pudesse queixar-se de silêncios embaraçosos. Era uma relação de fazeres e de poucas falas. Ele convidou-a para jantar em casa dele e ela convidou-o para jantar em casa dela. Os cozinhados saíram bem. Na última vez, ele tocou piano. Improvisou. E ela retribuiu mostrando-lhe através do Youtube umas músicas nascidas em Brooklyn. Entretanto, voltaram ao garfo, à sobremesa e, embalados, começaram a curtir. Mas eis se não quando Alice pede para pararem. Olha para a porta e diz que tem de ir embora. José encolheu-se. Os braços enfiaram-se para dentro do tronco. Perguntou se se passava alguma coisa, o que é que ele tinha feito que a aborrecesse. Alice respondeu: "Estou sóbria, da outra vez não estava".
domingo, 2 de janeiro de 2011
Ganchos
Josefina abusava dos ganchos no cabelo, mas quase ninguém reparava nisso. Naquela noite, Nuno surpreendeu-a com uma observação a respeito deles: "Tanto gancho no cabelo. O que queres tu segurar?". Nessa noite, Josefina não voltou sozinha para casa. O Nuno acompanhou-a. A viagem de taxi foi substituída por um longo passeio a pé. Por fim, chegaram ao destino. Maria disse-lhe: "Esta é a fábrica de ganchos de que te falei".
Plantar uma árvore
Estava quase a chegar a casa, já na sua rua, quando reparou na escultura de uma árvore, estacionada em frente à porta do prédio número sete. Raios, pensou. Parou. Mexeu-lhe nos ramos e descobriu que parte deles estavam partidos. Só os de cima estavam bem de saúde. Estavam presos por uma rosca ao tronco e mexiam-se à nossa vontade. Olhou então para o relógio e fixou cinco minutos. Estaria abandonada, prontinha para ir para o lixo? Ou alguém a teria deixado no passeio enquanto tinha ido simplesmente buscar o carro? Findo os cinco minutos, deu por si a agarrar nela desajeitadamente. Colocou-a debaixo do ombro e trouxe-a para casa. Foi uma odisseia. Além de pesada, era alta e foi difícil fazê-la entrar pela porta. Teve de a inclinar duas vezes. Levá-la para o escritório também foi custoso. Ganhou uma nódoa negra no braço. Deu um trabalhão. Mas passado 25 minutos, a árvore estava plantada.
Desculpa
Convidei-o para um café. Cheguei mais cedo cinco minutos, escolhi a mesa mais ao canto, sentei-me e comecei a recuperar o que tinha planeado dizer-lhe desde a semana passada. Tinha de lhe dizer que a minha cabeça me tinha atraiçoado. Ficou à solta sem eu querer. Virou-se sem eu fazer por isso, começou a sentir falta de uma camisola de lã quentinha a quem se tinha abraçado no outro dia. Mas isso não lhe podia contar. Essa parte tinha de ficar de fora. Ele chegou em passo lento. E quando me olhou com brilho nos olhos, percebi que ia ser muito difícil dizer-lhe o que tinha de lhe dizer. Andava há dias perturbada, com um amargo boca, como se me quisessem enfiar um pedaço de carne pela goela abaixo, à força, estando eu na minha fase vegetariana. Depois de umas piadas, comecei a parte séria da conversa: "Não sei como te diga isto, nem sei como te explicar, não controlo a minha cabeça. Se a controlasse, ficava contigo. Mas não a controlo e ela foge-me noutras direcções. Não tens culpa. Desculpa". Ele pediu-me para não lhe pedir desculpa. "Isso nunca". Desde aí, nunca mais pedi desculpa a ninguém.
Eu não estou aqui
"Somos o que procuramos", dizia o Manel. Tinha lido aquilo algures e meteu a frase no meio da conversa de café no Vertigo, Chiado, Lisboa, Inverno. Marta estava em desacordo. "Não somos nada o que procuramos, isso é o que queríamos ser". Manel voltava à carga. "Eu sou. Tu podes não ser. Eu sou o que procuro".
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Caixa de fruta
Na escola, quando lhe pediram para se desenhar, fez uma árvore. Arminda optou por um tronco alto, esguio, sem se esquecer das raízes. Deixou-as visíveis. Na altura, a professora fez-lhe um reparo duro e inesquecível. Se ficas, não vais, não passeias, não voas. Arminda nunca tinha pensado no movimento, no que este significava concretamente. Ficou dias entretida com aqueles pensamentos, as aves ganharam o foco da sua atenção, de cima viam o que ela nunca veria, e não pareciam preguiçosas, não paravam quietas. Daí nasceu uma pequena máxima: tudo muda. Daqui a segundos pode ser outra coisa. Basta um vento. Uma caneta Bic laranja. Uma caixa de fruta que lhe entre pela casa adentro.
domingo, 26 de dezembro de 2010
Helicóptero
Tinha passado mil vezes naquela rua. Rua acima, rua abaixo. Há anos que o fazia. Nunca a tinha visto. Naquela tarde viu-a. A loja era discreta e a porta mal se via. Um helicóptero na montra chamou-lhe a atenção. Entrou. Lá dentro, as prateleiras apresentavam aviões, helicópteros, iates, "um barco do amor", como o da série dos anos oitenta, automóveis. Todos eles funcionavam. O vendedor explicou-lhe: "É uma loja de brinquedos para adultos". Começou então um novo filme dentro do anterior. "Não me posso queixar da crise. Um cliente novo volta sempre". No outro dia, contou, um senhor de uma só vez comprou 20 exemplares de carros, motas e aviões. Tinha tido um incêndio na garagem e antes de pensar nas obras a fazer, veio a correr à loja para reaver os seus modelos de eleição. "Como se pode explicar tal incoerência?", perguntei. "Vou mostrar-lhe", disse. Agarrou no helicóptero e em dois minutos colocou-o a voar. O aparelho parecia real. Levantou voo como fazem os que não são para brincar. As duas pessoas que chegaram entretanto também se calaram. Fez-se silêncio. Todos se focaram nas hélices. Ele já estava fora do chão. Todos nós ficámos com os pés fora do chão. "Está a ver, quando se olha para um helicóptero em voo não se pensa em mais nada. Os adultos precisam disso".
domingo, 12 de dezembro de 2010
Dona teresa
As vistas eram largas naquele apartamento da Avenida Estados Unidos da América. Podia ver-se a cidade em tamanho grande, Lisboa em 360 graus. Do aeroporto, ao Cristo Rei. Sara arquivou aquelas imagens. Pestanejou entre elas, como se de um registo fotográfico se tratasse. Depois de um jantar saboroso, a malta sentou-se na varanda e ninguém se queixou do frio, apesar de se estar num nono andar, em Dezembro. Fumou-se e bebeu-se. Os gins perderam para os vodkas. Primeiro falou-se de adopção. Depois, quando a conversa entrou em desalinho, disseram-se muitos disparates. Pelo meio andou-se de baloiço - havia um na varanda - dançou-se na cozinha. Sara dançou sozinha, retirada, uma música calminha. Também na cozinha, uma das paredes era envidraçada. Sentia-se ali com um pé na rua. E pensou no Pedro. Pensou no quanto ele iria gostar de estar ali. Tinha a certeza disso e se há coisa que a Sara não é, é uma mulher de certezas. Por isso era tão tolerante. No regresso à varanda do convívio, Afonso falava da dona Teresa. Dona Teresa para aqui e dona Teresa para acolá. Duas das pessoas presentes sabiam muito bem quem era a dona Teresa. Para Tomás, tratava-se de uma pessoa insuportável. Não respeitava quem estava a escrever na redacção. Entrava por ali adentro, sem aviso, com o aspirador. Usava-o como se fosse uma arma e começava a disparar. Um incómodo. A melhor história acerca da dona Teresa foi contada pelo Afonso. No ano passado, na altura da passagem de ano, Afonso abraçou-a, e enquanto lhe desejava bom ano, na parte do afastamento dos braços, deu-se um beijo na boca. "Beijaste a dona Teresa?", perguntou Tomás, atónito. "Beijei".
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O terceiro elemento
Madalena tinha uma teoria. Quando há uma ligação entre duas pessoas cria-se uma espécie de terceira entidade. Chegado aqui, ou se sopra e a bola de sabão lá vai. Ou se põe o dedo e ela cai. No início é tudo muito frágil.
Estás a gostar do bolo?
Sem se dar conta disso, Matilde punha as pessoas à prova. Em conversa com o Gonçalo, percebeu que o procedimento vinha dos seus tempos de escuteira, da infância. "Bem, como nunca pensei nisso, assim, objectivamente", disse, usando as palavras de forma espaçada, em ritmo lento. Inspirado, certamente por causa do bolo de maça quentinho, acabadinho de fazer, Gonçalo esticou-se mais um bocadinho, lembrando a Matilde o seu pessimismo preliminar em relação a qualquer novo interesse. "Isto não vai dar em nada. Vou só confirmar que não temos nada a ver um com o outro!", reproduziu, imitando-a na forma de falar. Matilde mudou de assunto: "Estás a gostar do bolo? Tem pouco açúcar?". "Esta óptimo. Posso comer mais uma fatia?". Entretanto, ficou cabisbaixa. E respondeu: "Claro. Ele nem está grande coisa, devia estar um bocadinho mais húmido e ligeiramente mais crocante em cima. Não está grande coisa!"
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