quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Olho azul

Abri-a bem olho e quanto mais o fazia, mas crescia o seu espanto. O espelho dizia-lhe que tinha um olho azul. Apenas um olho azul. O outro estava igual ao que sempre foi: castanho cor de castanha. Demorou alguns minutos até conseguir encontrar uma explicação. Afinal, no dia anterior tinha dois olhos normais. Tinha dormido sozinha, com lençóis lavados, é certo, a última refeição não incluiu nenhuma iguaria excepcional - voltou a comer queijo fresco com salmão fumado, sobre o qual espremeu um limão. Estaria com o tumor e ver mal por causa disso. Morrer com um cancro na cabeça seria o seu destino? Que fatalidade! Mas isso só acontece aos outros e não a ela, uma pessoa normal, que nunca foi além de uma gripe, curada em três dias. Só podia ser uma doença grave! O que mais podia ser, ia-se perguntando. Quando saiu de casa, perguntou à primeira pessoa, uma velhota que passou: "Desculpe, pode ajudar-me? Repare no meu olho. De que cor é?". Fechou ligeiramente as pálpebras para se fixar bem e respondeu: "Castanho". Atirei logo: "E o outro?". "Azul, é azul", respondeu. "Como pode ser, ontem tinha dois olhos castanhos", disse-lhe. Com ar rezingão, barafustou: "E ainda reclama. Quem me dera ter pelo menos um azul".

domingo, 4 de janeiro de 2009

Enganos

Enganou-se no autocarro. Quando reparou que aquela era a Avenida de República, foi rapidamente ter com o motorista perguntar-lhe que trajecto era aquele. Afinal, estava no 32 e não no 22, que costuma deixá-la na João XXI. Ficou na paragem seguinte, ao pé do Campo Pequeno. Como estava a chover, entrou no que é um centro comercial, paredes meias com a praça de Touros. Estava esganada de fome. Pôs-se à procura do espaço para refeições. Mas antes de o encontrar, viu uma cara familiar. Sabia que a conhecia mas não sabia exactamente de onde. Resolveu segui-la. Fingiu ver a montra que precedia a que este via. Passado uma boa meia-hora, aproveitou o facto de este mudar de corredor para o confrontar: "Olá. Eu conheço-o, não conheço?". Por mais voltas que dê, não percebe o que a levou a fazer aquilo. Saiu-lhe. Mais espantosa foi a resposta dele: "Não sei. Estou perdido".

Tão simples

João não resistiu a ouvir a conversa do lado. Falavam alto. A rapariga de cabelos lisos dizia que adorava fazer pão para o namorado. Que tinha sido assim que a sua relação tinha começado. A mais ruiva analisava cada frase como se fosse especialista em comportamento: "Quando se faz alguma coisa por alguém, esse bem é devolvido, e o amor pode ser isso, é pôr a funcionar essa ponte, tirar-lhe as portagens!". A criatura mais baixa, que não conseguia perceber se era rapaz ou rapariga, gozava: "Lá estás tu, sabes tudo!". Ainda lhes disse: "Pareces a minha sobrinha de quatro anos que tem sempre uma última palavra a dizer". "Ok, fiz-lhe pão e ele gostou, mas não foi só isso, damo-nos muito bem na cama". Foi quando passaram para este nível que a conversa se tornou irresistível. "No resto, no dia-a-dia, até acho que somos um pouco disfuncionais. Às vezes, ele não entende o que eu digo e mostra-se desatento, quando explico pela segunda vez. Mas não ligo". Alguém aproveitou um silêncio de três de segundos para perguntar: "Como é? Como é entenderem-se bem na cama?". A resposta foi simples: "Quando se gosta, repete-se".

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Odeio talhos

Rita explicava ao Pedro o motivo da sua ocupação constante. Estava sempre a fazer alguma coisa, a programar o que se seguiria, a planear mesmo o que sabia que não tinha condições para cumprir. Noutros tempos não era assim e sofria. Agora não. Optou por andar distraída. A distracção - agora distração por causa do novo acordo ortográfico, que também muda muitas palavras até aqui com hífen - entretém e evita pensamentos relacionados com a morte. "Estou aqui, mas posso não estar e não estarei qualquer dia", dizia ao Pedro. "Quando olho da janela e procuro céu azul, procuro deitar-me nele, como se tivesse acabado de estender a toalha de praia num dia de sol". Antes não. O azul imenso invadia-lhe o cérebro, fazendo-a pensar em tudo de forma nua e crua. Em poucos segundos, ficava dominada pela tristeza. Evitava as montras de talho, tinha o cuidado de passar para o outro lado quando avistava alguma, pela mesma razão. Carne exposta daquela maneira é pornografia. Agora sim, continuava a contar ao Pedro. Não tinha tempo para depressões. O Pedro perguntou-lhe então: "E não te cansas?". Rita encolheu um pouco os ombros e depois de uma pausa, atirou: "Claro, mas antes cansada que morta".

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Vizinhas

Vinha do hospital de braço dado com o sobrinho. Quase que a Sara tropeçava neles no segundo degrau. Aconteceu quando Sara se viu obrigada a ir a casa à hora de almoço por causa de uma inundação. Lia, a vizinha, regressava à casa de Alvalade para uma estadia curta. Contou que o médico lhe disse que seria no máximo uma semana. Durante esse tempo, teria de aparecer um dador de coração compatível. Mas Lia não parecia dramatizar o que se estava a passar com ela. Falava dos factos com entusiasmo. No encontro com a vizinha de lado, que se deu logo a seguir - as escadas tinham-se tornado a praça pública - dizia que o que mais a chateou no tempo passado na enfermaria não foi a comida, não foi a falta de humor de certos médicos, mas os outros doentes. "Aquelas provincianas que passam o dia a lamentar-se, que estão sempre a queixar-se das dores deram-me cabo dos nervos". Mariazinha, do segundo esquerdo, concordava, acenando com a cabeça para a frente, enquanto, ao mesmo tempo, lançava um sorriso fechado. Bem, o pormenor romântico da história foi o olhar iluminado do sobrinho. Comportou-se como se estivesse a assistir a uma cena de filme. Não disse nada. Manteve-se como observador não participante mesmo quando foi apresentado como sociólogo que se dedica à investigação. Num quadro normal, Sara teria subido às paredes com a ideia dos provincianos, que são quase sempre, os que gostam de chamar aos outros isso mesmo. Neste caso, não. Pensou que a tolerância teria de ser isso. Fez como o sociólogo giro. Ficou muda. Depois, assim que ele bateu a porta, foi à janela para o ver desaparecer na rua. A esquina comeu-o.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sinto-me com sorte

Reparou que o google dizia "sinto-me com sorte" e pensou que estava a alucinar. Deve ser do xarope forte, composto com ervas de nome esquisito que estava a tomar. Esquisito. Lembrou-se de uma zanga antiga, com um ex-namorado, quando este lhe chamou a atenção que andava a reagir às questões mais difíceis sempre da mesma maneira, dizendo apenas: "Que esquisito". Clicou no sinto-me com sorte para ver o que acontecia e foi encontrar nessa página uma associação chamada UPS. Voltou a fazer enter até descobrir que se tratava de Unidos Pelo Sofá. Faziam parte da associação alguns nomes familiares como José Diogo Quintela, Jacinto Lucas Pires. Hum. Foi procurar o último livro dele e leu a frase que tinha sublinhado: "Subo ao telhado. Se eu amasse alguém, seria assim, por cima da cidade". Voltou à página e procurou contactos. E, sim, tinham sede própria. Ficava na Estefânia. Ligou a uma amiga que morava ali perto para lhe perguntar se a conhecia. Camélia não atendeu. Voltou a insistir e ouviu do outro lado uma voz rouca e encolhida. "Sim, sei o que é, não é nada de especial". Combinaram ir tomar um chá ao UPS. "Daqui a uma hora". Vestiu o seu casaco novo. Olhou-se de lado ao espelho, como faz quando se prepara para algo importante. E lá foi. O portão era grande. Assim que o empurrou, percebeu logo que ia gostar daquele sítio. Parecia um espaço encantado. Sentaram-se com movimentos lentos nos sofás de material gasto e adornado. Virou-se para a Camélia e perguntou: "Porque nunca me falaste disto?". Camélia resmungou: "Sei lá! Isto não tem nada de especial". Foi para casa cabisbaixa. Camélia só tinha queixas para lhe contar. Foram tantas que se cansou com a tareia. Grande chata. Os braços descaíram, o pescoço inclinou-se. Chegou a casa exausta. Ligou o computador e lá estava: sinto-me com sorte. "Estes gajos do google lembram-se de cada uma", pensou.

Vou comprar um cão

Assim que pus um pé no taxi, deixei sair as frase: "Que cão tão branco!". O bicho estava rodeado de três velhotes ao pé do rotunda do Marquês do Pombal. Foi o suficiente para que o taxista começasse a falar do seu rafeiro. "É mais esperto do que muita gente", disse. Perguntou-me se já tive um cão. Respondi-lhe que sim, mas que este morreu. Não fez a pausa que costuma fazer-se depois de alguém dizer que alguém lhe morreu. Apressou-se a contar que o seu rafeiro não faz porcarias em casa e que até sofre com isso, por se conter, até ele chegar. Falava tão animadamente que acabei por trazer à memória os melhores momentos que passei com o meu cão. Ainda disse ao taxista que há quem diga que os cães são tão espertos como as crianças de três anos, um misto de sensibilidade com ingenuidade pura. Abanou a cabeça, dando sinal afirmativo. Os cães sabem ser amigos, prosseguiu. A sua sabedoria ou o que seja que provém da sua genética tem esse dom. Perguntei: "Tem amigos que não sabem ser amigos?". O senhor Zé, como veio a apresentar-se, atirou a resposta certa: "Tenho. São cães de louça".

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pessoas

Quando estou mais em baixo, contava o Zé, volto a ler Fernando Pessoa. Ele é o guru dos solitários que têm gozo em sê-lo. Josefa via com distância essa realidade. Neste momento, tinha dois filhos, um marido ocupado que a fazia sentir mãe solteira e estava cada vez mais afastada dos amigos de sempre, que continuavam a sair à noite, a frequentar festas. Umas amigas de outros tempos tinham criado um colectivo de djs a que chamaram "Donas de casa aos pratos". Na primeira vez que ouviu o nome, até pensou que estavam a gozar com ela. Pois sempre coleccionou pratos, dos mais retro, aos modelos com mais design. Enfim, disse ao Zé que não sabia o que ler agora que tinha pouco tempo. Nada a animava. E o pior é que a maior parte das narrativas lhe pareciam demasiado fantasiosas. Chegou a dizer que até deu por si a pensar no outro dia se a valorização dos escritores e das suas obras não era uma atitude do século passado. "Porque são eles os heróis do intelecto?", questionou. O Zé acalmou-a. Elogiou as crianças, vivas e espertas, o trabalho onde ainda brilhava. O Zé disse-lhe que ela tinha tanta coisa boa a que se agarrar e fez-lhe ver que ele tinha muito menos motivos para acordar bem disposto. Ela deu-lhe razão. Ele foi lá dentro, fez um embrulho rápido com papel de jornal e deu-lhe um presente: "O rosto e as máscaras", poesia e prosa de Fernando Pessoa. Ela emprestou-lhe a Rita, de quatro anos, para ele passear um dia inteiro.

São Martinho

Sofia estava a chegar aos 35 e sentia-se como sempre lhe disseram que era suposto sentir-se aos 30. A parte de se achar menos incomodada com o estar sozinha a comer castanhas e beber jeropiga em noite de São Martinho era agradável. Ligou-se à net, partilhou o magusto online com o Pedro e bebeu mais do que ele. Como se provou. Contou-lhe pelo gtalk que tinha pena que ele se tivesse virado para a Olga naquela altura. Ela já tinha comprado roupa interior nova. Daquela vez optou pelas bolinhas. Milhares de bolinhas, pintinhas. Atirou-lhe que ele tinha sido burro. Mudando de tom, o Pedro não gostou nada de ouvir aquilo e, entre castanhas, foi contando que a Olga não foi nada de especial, que ele estava numa fase de não querer nada de especial, que ela se sentou ao colo dele e que ele se sentiu quentinho. Do alto dos seus 3o anos, Sofia disse-lhe: "Aconteceu, não aconteceu? Isso é que interessa. É a vida". "Não", corrigiu ele, "é a vidinha". Sofia desligou o gmail triste. De repente, ficou cansada. Pedro ficou online a escrever-lhe para o mail. Entre outras coisas, disse-lhe que o que eles tinham lhe parecia não se encaixar nem na amizade nem no amor. Talvez não haja o nome certo, concluiu. Depois de 2500 caracteres, terminou: "Por isso, não podemos namorar, nem ser amigos".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Estou de férias

O amor dá-me tensão. O sangue circula mais rápido, que eu bem sei. As veias transformam-se em auto-estradas. Sem o amor, parece Outono. As folhas caem e vão andando ao sabor do vento. Por vezes, viram-se, outras desfazem-se. Sem o amor, ando calma. Posso ter um pouco de sol, mas nunca o suficiente para me querer despir em casa. O frio também não incomoda e até relaxa. Sem amor, não me preocupo e a preocupação faz-me mal. Sem amor, não tenho horas, compromissos, nem de contar nada de que não me apeteça. Pois é, sem amor nem sequer tenho de ter os pés no chão. Posso andar distraída. Posso desaparecer. Fazer os disparates todos: comer a sobremesa, antes do prato principal e deixar a sopa para o fim. O amor dá trabalho. O amor dá trabalho.