sábado, 25 de agosto de 2007

Palhaço

Ficou sozinha no bar de máscara nos olhos. Era Carnaval e os amigos estavam mais eufóricos do que era costume. No momento de decidir ir para outro sítio, formaram-se dois grupos e foi por causa disso que Felismina acabou por ficar sozinha. Os primeiros a sair pensaram que ela vinha a seguir. O segundo grupo partiu do princípio que ela já ia adiante. Foi assim que conheceu o Rui. Depois da troca de palavras com o então desconhecido, Felismina disse-lhe que tinha ficado ali sozinha e ele prontificou-se a levá-la ao outro bar onde estariam as amigas. Bem, enrolaram-se, não foram ter com ninguém mas um com o outro, "fizeram o amore" até ao nascer do sol numa casa com vista para o Tejo. Felismina não gosta de adormecer de dia e fê-lo parar assim que a claridade deu de si. Perderam bastantes calorias. A barba dele exfoliou a pele do queixo dela. Trocaram, depois, o que podiam em três semanas. Ao 21º dia, ele mandou-lhe uma mensagem escrita a dizer que estava confuso. Ela percebeu o que se estava a passar. Só nessa altura, com a ruptura, teve coragem de contar às amigas que havia uma faceta muito forte dele que lhe provocava pesadelos: ele era palhaço em part-time. Palhaço? Sim, à séria. Ela não tinha nada contra palhaços e por quem faz de palhaço, mas, sem saber muito bem porquê, estes metiam-lhe medo, como se escondessem sempre uma tragédia que estaria quase a chegar. Não lhe foi difícil esquecê-lo. O facto de os pesadelos acabarem, ajudou.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Sexto sentido

São eles que o têm. São eles que têm um sexto sentido apurado. "Não pode ser?". "Pode, pode", respondeu a Samantha do grupo. O assunto era tão corriqueiro quanto divertido: gajos. Deitava-se conversa fora quando Maria deixou a ideia: "Os gajos têm um sexto sentido". Baseou-se em factos para defender a tese. Contou que sempre que alguém a interessava, surgia de novo o Zé. No outro dia (foi tão engraçado) deu por si a responder de enfiada a um e a outro, por msn ao Zé e por mail ao Manel. Uma boa meia-hora, não, bem mais do que isso, foi assim passada. Dois jogos ao mesmo tempo. O tempo fugiu. No fim, resolveu apagar todas as mensagens do Zé e desistir do convite para jantar. Na conversa do ninho de amigas, outras teses se impuseram: "É que hoje em dia as mulheres acham sempre que podem ter um companheiro melhor", disse ainda a Samantha inspirada. Eles ganharam o sexto sentido (não estou a ver o meu pai a tê-lo). Elas tornaram-se exigentes. Maria acabou por ir jantar com o Manel.

Biquini

"Acabou de ir para o lixo o meu biquini preferido". Joana telefonou à amiga para lhe contar a novidade. No dia em que o comprou não lhe assentou na perfeição, mas depois de duas idas à praia tinha ganho o estatuto de objecto-pele. São poucos os que ficam nessa sua prateleira mental. Tem uma camisola gasta que ainda veste em casa nos dias em que sente saudades. Voltando ao biquini, este apanhou umas manchas amarelas na piscina. Lavou-o, lavou-o, até se aventurou a passá-lo por lixívia, mas não notou diferença. O fim do biquini coincidiu com a morte de mais uma história amorosa. Como dizia o outro, vão-se os anéis e ficam-se os dedos. Os anéis são as histórias. Depois de o telefonema terminar, apeteceu-lhe ligar ao Zé. O Zé também estava para lhe ligar. Encontraram-se. Contou-lhe a história de vida do biquini. Ele gostou muito. Adorou os pormenores. Disse, depois, que tinha de ir à Fnac para comprar um CD a um amigo e que voltava logo. Mas não voltou, nem mandou sms. Eclipsou-se. No dia seguinte, foi ao seu encontro. Joana não estava a acreditar que o Miguel estava do outro lado da passadeira com uma prenda na mão... Era um fato-de-banho.

Ao que chegámos

Carolina levantou-se mais cedo do que era costume. Não conseguia abrir o olho da esquerda na totalidade. Estava colado ao sono. O da direita bastou-lhe para se orientar minimamente. Enfiou a escova de dentes na boca, esfregou os dentes com as forças que tinha. Eram poucas. Tinha prometido que ia à feira nesse dia e não podia falhar. Estava um dia rijo de Verão e valia a pena ver com era. E foi muito bom. Enquanto descia no carro velho entre os montes, através da estrada magra em largura, foram passando pela sua cabeça pensamentos pouco organizados. A sua vida estava estreita como aquele caminho que só dava para um carro. Era assim que se via: sem bermas por onde poder fugir. Lá em baixo, no meio do largo local onde se situava a feira, várias coisas aconteceram. Quem mais lhe chamou a atenção foram os ciganos: o Acácio que conhecia desde tempos da escola e que nunca mais vira; um miúdo de três anos arrebitado e a avó de preto quase de burka. Ela tentava vender a todo o custo as camisas aos quadrados dizendo: "Não tenha vergonha de comprar barato". Pelos vistos, tinham. As camisas não tinham saída. O miúdo não parou quieto o tempo todo. Quando um carro de mão tocou na tenda da sua família, barafustou como gente grande sem travão social: "Ai se te apanhasse em Espanha, nem sabes o que te fazia, limpava-te logo". Os pais e os avós repreenderam-no mas de forma pouca assertiva. Acharam graça como toda a gente que assistia. O melhor momento estava para vir. Quando passou um burro de pêlo escuro, castanho brilhante, o puto reagiu logo: "Avó, avó, um burro, um burro!". A senhora de vestes pretas levantou as mãos para o alto e gritou com voz de quem fumou (não deve ter fumado, mas o seu timbre dava sinais disso): "Ao que chegámos, ao que chegámos, até um cigano fica surpreendido por ver um burro".

sábado, 11 de agosto de 2007

Bendito roubo

Mariana roubou o namorada à Marta e em boa hora o fez. Com a Marta o Zé era um rapaz pouco dedicado. Com Mariana, o Zé era outro: atento, perspicaz. Será que as pessoas mudam conforme quem têm pela frente? Este exemplo diz que sim. O Zé nunca se separaria da Marta se não fosse a Mariana. Marta não o mandaria embora por achar que gostava dele. Afinal, o motivo de não se interessar por mais ninguém só podia ser esse, não? Não era. Mariana reparou no Zé quando ele se deitou em cima da Marta sem lhe tocar. Os braços firmes seguraram o resto do corpo, deixando-o em suspenso. Era franzino mas elegante. Como podia a Marta vê-lo como desajeitado! Contava sobre ele as histórias mais absurdas. Na noite em que a Marta disse à Mariana que não tinha grande gozo em dormir com o Zé, Mariana foi à sua procura e roubou-o. Tirou-lhe os 20 euros que ele tinha na carteira e quando foram ao multibanco buscar mais dinheiro, encostou-se a ele, dando o arranque a outra história. Mariana ainda hoje guarda na caixa dos segredos esses vinte euros. Quando ele for embora, devolve-lhe o dinheiro para que possa ir de táxi para casa. Será que em 2020 ainda vai dar para isso?

domingo, 29 de julho de 2007

Viva a mentira

Abaixo os psicólogos e psicanalistas que vão buscar pesadelos do passado para justificar os do presente. A maior parte dos traumas de infância são interpretações incorrectas. Luísa não era feliz com a verdade. Passou a vida inteira a viver em função dela e raramente se deu bem. Agora ia divorciar-se dessa obsessão. A verdade que vá chatear outra moçoila maníaca, insatisfeita. Afinal, podia viver com a mentira. Era uma questão de treino. Ela pode tornar a vida mais suave. Primeira aula: não dizer o que se pensa, desviar o assunto. Assim fez. Acham que alguém reparou? Nem o Zé que continua a enroscar-se nela antes de adormecer, enquanto não aterra, antes do salto para o outro lado da cama como se aquele espaço fosse outro continente. Nem a Maria, sua grande amiga das confidências mais vergonhosas. Só uma pessoa lhe chamou a atenção para a fina mudança: a empregada palradora. Disse-lhe: "Não me diz o que aconteceu ao vestido que justifique a nódoa, vou arriscar e colocá-lo na máquina". Foi a verdade, ficou o risco.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Campo e cidade

Descobri pessoas depressivas no campo. Nunca tal me tinha passado pela cabeça. Sempre associei a tristeza e a rude destruição da vontade à cidade, a uma vida sem paragens para o sono, marcada pelos excessos da noite, do namorado ou namorada, do trabalho. Cada vez mais por causa do trabalho - 12 horas por dia com cabeça metida na secretária não faz bem a ninguém-, ou então, por falta dele - desemprego que nem sequer permite um subsídio que pague os cafés. No campo, a perdição é outra. Não se passam acontecimentos vistosos para além das saídas de estranhos da casa da vizinha. Nasceu um gato novo, mas, de resto, sucede-se a ordem regular da natureza. Os que chegam da cidade deliciam-se com a música dos pássaros, dos galos, das árvores em dia de vento, mas Clara sonha com um concerto de rock. Lembrei-me do que a Helena me disse: "Sabes que li que os proprietários de casas de turismo rural são todos, todos, citadinos. Curioso, não é?". Dei por mim a pensar que a prevenção talvez esteja em alternar campo e cidade. Decidi telefonar à Clara e oferecer-lhe o meu bilhete para o Superbock SuperRock. Eu vou para o campo pedalar.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Beleza portuguesa

Quando o Rui lhe tocou ao de leve no braço, lembrou-se da cena do filme “Virgens Suicidas” de Sofia Copolla. Quem nunca teve uma assim, que alimenta duas semanas de paixão inebriada, perdeu uma das dádivas desta vida. Quando o Rui lhe passou os dedos pelo pescoço escondido pelo cabelo, Josefa não sabia se queria deitar-se com ele. Tinha 30 anos, um namorado obsessivo para apagar da cabeça. Um ex-namorado, desculpem o engano. Não tinha ainda o espaço disponível para receber informação de natureza tão matizada. Às vezes acordava a pensar que ainda tinha de dizer ao Rui qualquer coisa sem importância, mas que fazia sentido dizer-lhe. Agora não contava as estórias de sempre a ninguém. Engoli-as. Por vezes, dava por si a falar sozinha. Tinha de corrigir esse hábito. Se o Rui tivesse avançado de outra forma, sem esse modelo tão estabelecido de sedução, talvez o contacto tivesse outro resultado. Mas engate, ou lá o que é, estereotipado, criava-lhe repulsa. E isso acontece-lhe nos casos mais comuns do dia-a-dia. Na piscina, odeia que a olhem quando sai pela escada. Mesmo enquanto faz uma pausa entre “piscinas” fica incomodada quando uns olhos de lobo que a querem comer a observam enquanto trincam o lábio. Por isso põe o seu andar mais desajeitado. No outro dia, deu por si a pensar, enquanto deixava a piscina para trás e procurava a chave do carro, que devia ser difícil levar a vida sendo muito bonita. Implicaria estar sempre a ser perseguida, desejada pelos homens, cobiçada pelas mulheres, desejada pelas raparigas e pelos rapazes. Daria em doida. Faria uma plástica para ficar menos atraente.

sábado, 9 de junho de 2007

Ricardo, o que lhe fizeste tu?

Várias amigas da Maria já tinham sonhado com Ricardo Araújo Pereira. Sim, esse, minhas amigas. Maria sempre se riu e riu até não mais poder com essas histórias. Mas aconteceu-lhe a ela viver um episódio com Ricardo Araújo Pereira que parecia sonho. Parecia. Foi assim: Era jornalista, tinha de o entrevistar, e lá foi. Um pouco nervosa porque sabendo tratar-se de um humorista que podia sair dali uma conversa arrebatadora ou completamente non sense, de que o seu editor não acharia graça nenhuma. Ele atrasou-se mas foi logo educado, simpático e muito normal. Podia ser o encontro com o senhor do café que ganhou a lotaria com os números que lhe disse a filha de três anos. Ricardo era um rapaz normal. Nem uma graça, um trocadilho lhe deixou para contar aos colegas. Nada disso. Deu-lhe foi uma seca com a conversa sobre a dor de dentes do siso. Como já tinha sofrido do mesmo, Maria contou-lhe alguns truques. Metade da hora e meia que passaram juntos, falou-se de quê? Exactamente: dentes. Ele tem-nos bonitos mas reles, frágeis, sensíveis aos gelados. Maria tem-nos amarelados mas resistintes o suficiente para elevar uma cadeira. Palavra puxa palavra e Maria deu por si a contar-lhe os sonhos que as amigas tiveram com ele. Então, é que foi! Que lhe fizeste tu, Ricardo, para ela contar o que não devia? Estamos todas chateadas com a Maria.

Pouca terra, pouca terra

Sempre desejei conhecer alguém muito interessante num comboio. Tão interessante, de ter vontade de levar na mala para casa. Um dia sonhei que me casava num comboio. Numa das carruagens comia-se, noutra dançava-se, noutra esticava-se as pernas em confortáveis sofás que se moldavam às exigências da nossa coluna. O copo de água demorava o tempo da viagem. Ele estava vestido de revisor e dizia-me sempre a mesma coisa: "O seu bilhete, se faz favor". Acordei com barulho do "pouca terra, pouca terra". E com a sensação de estar o cansaço a substituir a boa disposição da festa. Queria que a folia acabasse, mas o comboio não parava. Foi essa inquietação que me despertou. O comboio nunca mais reduzia a marcha. Pelo contrário, ia acelerando, acelerando.