quinta-feira, 22 de setembro de 2011
és mesmo parva
Josefina tem o dom de ver como as pessoas são em dois minutos. Percebe se são sábias, preguiçosas, pouco espertas e enfadonhas. Tem o dom, mas não o usa. Usou-o em tempos, mas descobriu o quanto aquela percepção lhe complicava o dia-a-dia. Bloqueou-a. Mesmo quando está descontraída e esta funciona automaticamente, procura empurrá-la para o submundo dos pensamentos a evitar. Por isso se faz de parva.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
raio do nariz
Ele tinha um defeito. Tinha sido namorado de uma amiga minha. Não era bem namorado. Tinha sido um caso breve. Coisa do passado, mas preferia não ter sabido. Não ter sabido dos pormenores. Maldita hora em que ela me contou. Estava arrumado, é certo. Nem os conseguia imaginar juntos. Ele é largo e ela quadrada, não encaixariam os braços. Ai, essa mania de imaginar tudo e mais alguma coisa! De resto, a sua companhia prometia horas sem seca. Subia sempre as escadas de casa a correr. Percebi o quanto me estava a agradar quando o nariz me denunciou. Mais uma vez, o nariz. Sempre ele. Pode ser Verão ou Inverno, não interessa. De repente, fica gelado. Ai que há aqui qualquer coisa, o que é que eu faço? Não faço nada. Levo lenços de papel na mala.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Fica com ela
Ele gosta tanto do cheiro dela que lhe roubou o casaco. Ontem, agarrou-se a ele como se lhe desse um abraço. Faltava tudo, a estrutura fininha e firme dela, mas estava lá qualquer coisa. Estava obcecado com a ideia de voltar a tê-la nos braços. Pensava nisso antes de adormecer. De manhã, só pensava no pequeno almoço. Mas depois do café, pensava no casaco, e se este não lhe faria falta. Ligou-lhe: "Ficou o teu casaco no meu carro, queres que o leve logo?". Lacónica, ela disse: "Ok". Nada mais. Quando ele lhe entregou a casaco, ela vestiu-o de imediato e ele aproximou-se. "Fica-te bem!". "Sabes", disse ela, "não é meu, é da Rita, ela esqueceu-se dele cá em casa e agradou-me tanto o perfume, que não o devolvi".
terça-feira, 26 de abril de 2011
Vento, ventania
Nasceu torta mas endireitou-se. Ficou alta, esguia, e à medida que o tempo passava, ia ganhando encanto. Há pessoas assim, dizia o João. Eram essas as pessoas importantes para ele, as que sabiam envelhecer e ficavam a cada dia mais sábias, elegantemente sábias. Na altura, achei ter percebido. Mas não tinha. Andava preocupada com as borbulhas na testa e com um pêlo nas costas do meu namorado. Gostar em crescendo, isso sim me agarra, dizia-me. Falou-me ainda do vento, do seu gosto em procurar locais com vento para namorar. Lembro-me bem. Eram versos soltos para mim, não tinha de lhes fazer a prova dos nove. Eu? Eu atirava-lhe evidências: tu queres que seja assim!
Teresa e Paulo
Teresa e Paulo tinham um ponto em comum. À sua maneira, viviam uma personagem que arranjaram sabe-se lá quando. Um dia Teresa contou-me de um acidente de carro dramático, de um filho nascido sem choro e achei que devia ser por ali. Para os desatentos, Teresa era a pessoa mais animada da freguesia. Sempre achei que era personagem, figura de cera. Havia uma caixa cheia de segredos. Paulo não falava mal de ninguém porque não o sabia fazer e tinha sempre uma piada para contar. Nunca me lembro de o ver em baixo ou em cima. Estava sempre bem disposto, mas da mesma maneira, aplicando o mesmo registo. Teresa foi despedida e nunca mais soube nada dela. Paulo despediu-se antes, por ter desistido, não conseguia aturar tanto desdém, e só esta manhã soube dos motivos. Os dois passaram por mim. Paulo parou ontem. Telefonaram-me a dizer.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Pedacinhos
António gosta de queijo. Havia queijo e ele veio. Falámos de queijo, provámos os queijos, e continuámos. O queijo ficou lá para trás, arrumado, embrulhado, alojado na prateleira arejada. Quando se foi embora, foi-se embora. E eu acabei por voltar aos queijos, a um pedacinho de cada um.
É isso
-Podes pensar o que quiseres!
- Nunca tinha pensado nisso.
- Nunca me aborreço por estar sempre entretida a pensar.
- Mas posso não dizer o que penso?
- Exacto. A maior liberdade é essa. A grande sorte. Depois se a conjugares com o que fazes, tens a liberdade de acção. No 25 de Abril abriram-te essa possibilidade. Até aí não podias dizer o que pensavas. Havia muita gente de boca calada.
- Não conseguia viver assim, tia!
- Se tivesses nascido nesse tempo, serias como os outros e terias medo. Depois, como tinhas a tal liberdade de pensar, farias a revolução.
- Seria revolucionária! Quero dizer o que penso! Mas não devo dizer tudo o que me passa pela cabeça, não é?
- Eu não digo, sobretudo para não magoar as pessoas, mas sei que posso fazê-lo, percebes?
- Eu antes falava tudo... mesmo que me abram a cabeça não me tiram de lá os pensamentos, mesmo que me abram a cabeça não me os tiram, é isso?
- É isso.
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