terça-feira, 7 de maio de 2013

cães de louça

A colecção de cães de louça não é bem uma colecção. São cinco, ao todo. Vieram parar cá a casa por acaso. Cada um traz uma história. Nunca se partiu nenhum, talvez por estarem fora dos aposentos reservados à cozinha. O maior foi oferecido aos meus pais no gozo e reencontrado exactamente na véspera da mudança de casa. O que veio de Moscovo foi comprado enquanto decorria um assassinato à porta do apartamento onde estava instalada. Quando cheguei à entrada do prédio, havia um lago de sangue e salpicos em redor. Subi rapidamente as escadas. Energicamente, de dois em dois degraus. Não quis usar o elevador. A meio caminho, um vizinho nitidamente perturbado, de mãos trémulas, fez sinal, levando o dedo à boca, para me calar. Sentada no sofá extra mole da sala retirei o papel vegetal do embrulho do cão e dei por mim a pensar na morte e na sorte que foi ter estado presa uma hora e meia na loja de artesanato. Primeiro, tive um bloqueio e não me conseguia decidir. Tinha planeado uma compra e não duas. Depois não encontrava o cartão visa em lado nenhum.

torradeira Crussel

faço café numa italiana para que o cheiro do café me encha a casa. antes de começar tem de haver uma introdução. não a passo à frente. façam-se torradas a seu tempo.

acordar

não vieram os melros cantar para ao pé da minha janela. acordei sem pássaros

viu

- tia, a mariana diz que se contarmos até 8 duas vezes em frente ao espelho, aparece o nosso namorado.
- isso não faz sentido nenhum. isso não faz sentido nenhum.
- pensei em ti e foi o que lhe disse (gesticula, abre os braços e as palmas da mão, estica os dedos).
- e ela? (a andar em passo lento no jardim fernando pessa)
- que viu o namorado, o rodrigo do 2.º A

casa da lista amarela

Era a primeira vez que passava férias acompanhada de duas amigas. Metiam-se na cama entre as 22 e 23 horas, depois do regresso do café da aldeia. A pedalar, iam de bicicleta, era uma galhofa pegada. O concurso da melhor piada. Bocas sobre colegas de escola, namorados improváveis, professores desajeitados ou segredos das festas de garagem. Interrompiam-se, riam-se muito. Faziam imitações. À terceira noite, conhecerem os amigos do Alfredo, o neto do vizinho da casa azul, que vivia no Porto. Duas noites depois, estavam a combinar um encontro, por volta da meia-noite, no pinhal colado à placa de entrada para a aldeia. Imitando as séries televisivas e os livros da Patricia e dos Sete, os Cinco eram para miúdos, planearam ao detalhe o encontro nocturno. Alguém bateria na janela três vezes e faria depois uma pausa. Dez segundos depois, repetiria os toques e sumiria. Saltariam então da janela em pés de veludo. Assim foi. O coração de Luisa nunca bateu tão forte. Nem na piscina, após as provas de bruços do segundo período. Teve de o apertar ao peito. Para se acalmar, mas também com intenção de abafar o som. Havia pouca claridade na estrada, as árvores ganharam cinzento. Ouvia-se o latido do cão vindo da casa de lista amarela. Não se lembra da temperatura, por isso não estaria frio. Mês de julho. Vestiam apenas camisolas largas, pintadas durante a tarde, depois do banho no tanque, que podiam ser dos irmãos mais velhos, não chegavam aos joelhos. Deram passos largos e saltaram estrada fora. Rodopiaram e dançaram para afastar o medo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

banho

Não suportava a inocência dela. Os princípios éticos e morais apurados. Davam-lhe superioridade. Inferioridade, para ele. Era demasiado limpa. Ela apresentou-lhe outra versão. Gostava de rock e algum punk, sons sujos, portanto, por alguma razão. Os grãos de areia não o convenceram. A angústia mantinha-se. Ele era um poço de defeitos, não queria que ela se banhasse nele.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

cravos

saiu-lhe das mãos um molho de cravos vermelhos. não cheiravam a nada, estávamos em 2009, o ano em que Lisboa perdeu os aromas. Os lisboetas tinham de imaginar o cheiro das manhãs luminosas e das sardinhas assadas na brasa. Foi um ano vivido em sensação de falta. Os melros voavam sem companhia, por lapso, cortaram-se árvores saudáveis nas ruas erradas. Os chineses, esses, começaram a ser vistos nas ruas, a fazer parte da paisagem; a avenida almirante reis, por exemplo, lavou-se e ganhou nova vida. Quando não me oferecem um molho de cravos no dia de 25 de abril, compro-os eu. Assim que agarro neles, vem para mim a sensação de conquista. não aos mouros, minha, nossa.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

peixinho

Josefina disse-lhe para aparecer às 19 horas no Cais Sodré. Ele não sabia ao que ia. Quis saber, mas não teve sorte nenhuma. Quando ele chegou, desfez-se um pouco e disse-lhe: vamos apanhar o barco. Os olhos dele brilharam muito. Viu neles escapar uma ligeira faísca, mas deixou a razão falar mais alto e arrumou rapidamente a percepção pouco realista. Não podia ser, ponto final. Lá foram. Subiram ao convés e ali permaneceram calados, a ouvir o barulho do motor, a água cortada pela ventoinha, de olhar fixo na outra margem. Quando saltaram para terra, começaram a dizer piadas sem piada. Funcionou bem. Desbloqueou a conversa e até o corpo tenso de Josefina. Beberam umas imperiais e puseram-se a caminho à beira Tejo. Objectivo: restaurante atira-te ao rio. Podia ser assim o fim de uma relação. Não era essa a ideia de Josefina. No regresso, parecia que tinham avançado meses numa paixão de horas. De vez em quando empurravam-se um ao outro, ombro com ombro, que nem miúdos de quarta classe. Tiveram de acelerar o passo para apanhar o último cacilheiro. Frio, estava muito frio, frio firme. Um mais despenteado que outro. Estavam gelados. Estavam gelados e comeram-se.

enrola na areia

a praia gosta de ti

domingo, 21 de abril de 2013

janela

praia. regresso a casa. cortina dividida em três. ferro de passar. desliza para a esquerda e para a direita. parte seguinte. meia hora nisto. cheiro a lavado na cozinha. mais um pouco. vapor. falta a meio. está quase. dores musculares. braços esticados. missão cumprida. quarto vestido. hora de ir para a cama. livro fechado. desligou.