sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Sumo de laranja
Quando a Alice conheceu o João, ele não podia ter a vida amorosa mais enrolada. O João namorava com a Luísa e tinha dado os primeiros passos em direcção à Carla, que trabalhava com ele. Ela era enfermeira e ele médico e calhou terem de trabalhar juntos em casos difíceis. Nos cuidados intensivos, estão sempre a afastar a morte dos corpos doentes e são levados a olharem-se muitas vezes, a fixarem o olhar. Isso estava a acontecer com frequência. E no outro dia, diante do cansaço do João, a Carla atirou uma frase certeira. "O que nos vale é isto. Parece que estamos a contrariar a natureza das coisas". Daí às risadas para descomprimirem foi um passito. Bem, Alice sabia que estava a entrar num filme cheio de histórias cruzadas e mal resolvidas, embora não soubesse exactamente quais no momento, mas ainda assim, não resistiu ao apelo. O que o João tinha que os outros não tinham era uma sinceridade espremida. Falava como se as palavras fossem sumo. Dizia muito bem o que pensava. Era exacto. E ela gostava da forma como ele pensava. Nunca sentiu a namorada como uma ameaça, contou-me ela. E quando o João lhe falou da Carla, passou-lhe pela cabeça que nascesse dali um caso, hum, um caso de batas e lençóis usados em cenário de hospital. E continuou a sair com ele, só para o ouvir e para se ouvir. E continuou a sair com ele. Ficava nervosa antes dos encontros, mas durante era tomada por uma grande tranquidade. Um dia ele disse-lhe: Arrumei tudo, só estou calmo contigo.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Correr a maratona
Susana estava arriada. E Felismina aussi. A conversa matinal fê-las rir. O que as unia naquele momento é que tinham andado as duas, sensivelmente na mesma altura, com dois Pedros. Foram oito e nove meses em que quase não se falaram. Encontraram-se no outro dia numa passadeira e a seguir fez-se esta conversa no msn.
1- bom dia! dormiste bem?
2- Dormi. Sonhei com ele. Um sonho fixe. E tu, como estás?
1- Só tu, no meio da confusão, encontras sempre qualquer coisa... Estou mais ou menos. Emagreci. Essa é a parte boa!
2- Eu estou a tentar aceitar. É a vidinha.
1- Ainda estou muito entupida, mas um pouco melhor... Agora é um dia de cada vez.
2- Não se pode mendigar amor...
1- Exacto
2- O que podemos fazer é tentar dar o melhor de nós: agora se não gostam, paciência!
1- É uma merda, mas é verdade!
2- Talvez não seja mesmo por aí. Podemos estar a ver o que queremos ver...
1- Pode ser, pode ser. às vezes também penso isso.
2- Cometemos erros, sim, cometemos. Fazem parte.
1- às vezes penso se, no meu caso, não foi tudo uma sucessão de equívocos
2- Pois...
1- Ou se fizemos tudo mal.
2- Mas agora é preciso andar para a frente. Custa. Mas é preciso meter na cabeça que se pode tentar de novo. Ter a noção de que o amor pode vir
1- Bem, que energia é essa!
2- Amar até que a morte não nos deixe mais...
1- É o que o meu pai me diz. "Não podes deixar de acreditar!"
2- Vê as coisas pelo lado dos sentimentos, e do que vale mesmo a pena.
1- Não posso estar mais de acordo
2- O resto, peripécias. Estou também a tentar auto-convencer-me, já percebeste... Pensar pelo lado da sabedoria. Ver de longe em vez de sofrer vendo de perto.
1- Nota-se...
2- A vida às vezes é uma merda, mas antes isto que descobrir um cancro nos ovários! ahahah
1- Isso é que não!
2- Ou então no colon. Ter de andar a mostrar o rabo aos médicos, a toda a gente.
1- Isso não era mau!
2- Ahahahah!
1- Enganei-me.
2- Eu percebi!
1- Tu não existes!
2- Sempre achei os rabos cómicos, hehe
1- Eu gosto de rabos.
2- Mas andar a levar com tubos pelo rabo a cima não deve ter piada nenhuma!
1- Não necessariamente pela veia da comédia.
2- ahahahah
1- Estás com uma energia... Não sei se é bom ou mau sinal.
2- É verdade. Sinto-me com forças para correr uma maratona.
1- Ui! Bem, tenho de trabalhar.
2- eu tb
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Nuvem em cima da cabeça
Silvia vivia mais um dilema típico seu: continuar a fazer de parva, de desentendida, para ver o que aquilo dava, ou saltar fora, sem rede. O tempo das conversas soltas na cama deram lugar a monólogos sem direcção. Luís começou a poupar palavras como se economizasse dinheiro em tempo de austeridade económica. E ela resolveu ser entertainer sem plateia. Contava as suas histórias, ao seu ritmo, gracejava se fosse caso disso, e mesmo que ele se mostrasse absolutamente desligado, continuava. Desde o despedimento do Luís que este mudou, e a relação deles foi-se ressentindo. O novo emprego, numa agência de comunicação rendia-lhe mais dinheiro, é certo. Mas o Luís deixou de ser a pessoa animada e criativa da altura em que era jornalista e em que ia para os copos. A Silvia chegava dizer que não percebia como algumas mulheres não gostavam de ver os maridos a chegar tarde a casa. Ela adorava. Ele vinha sempre com vontade de a compensar da ausência e normalmente nessas noites havia boas movimentações na cama. O Luís não abusava na bebida, por isso, esqueçam lá o mau hálito e os suores intensos. Não havia disso. Em pouco tempo o Luís começou a viver como se andasse sempre com um nuvem carregada em cima da cabeça. E a Silvia só conseguia ter bons momentos com ele, quando dessa nuvem caía chuva e ele falava, falava. Em pouco mais de seis meses, Silvia deu por si a pensar se estava para aturar aquilo. Aguentar alguém assim por mais um tempo para ver se alguma coisa mudava, se o Luís, sacudido por alguém, sei lá, por um acontecimento qualquer, voltava ao que era ou deixava pelo menos aquele autismo nível cinco. Ou, ir-se embora para evitar aquela dor que é ver um amor esmorecer, ficar moribundo, em coma, a entrar no forno crematório. Claro que a Silvia tentou alertá-lo para o que se estava a passar. Porém, como é costume nestes casos, ele estava cego, preso aos seus problemas e reduziu o resto e ela, principalmente, a uma ninharia. Luís passou, entretanto, a estar sempre cansado para a brincadeira na cama. E ela foi desistindo de puxar por ele. Ainda assim, sentindo aquela relação a desgastar-se, Silvia continuou o seu show off: contava-lhe os momentos cómicos do seu dia, continuava a mostrar-lhe os novos temas descobertos por acaso no Youtube. De falar pouco, a importar-se pouco com ela, fez-se um percurso rápido. Um dia ela sentiu-o tão desligado, tão pateticamente centrado no seu umbigo, e percebeu: o melhor era ir-se embora. E foi.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A minha praia
Ana reparou naquela figura enquanto ele brincava com uma amiga na praia. José provocava a Maria com frases certeiras, roubou-lhe o livro grosso, a que chamou tijolo, e depois fingiu que se deitava em cima da Maria, sobre o seu corpo, sem sequer lhe tocar. Aquela aproximação física, a forma como o fez, despertou-lhe qualquer coisa no cérebro. Maria ria-se sem parar. Notava-se ali uma amizade sólida e viva. Desde aí, Ana passou a seguir-lhe os passos com discrição. Os mergulhos, como José se atirava às ondas, os comentários ditos durante o jogo de cartas, o que falou acerca do stress diário provocado pelo trabalho. Findo o dia de praia, alguém do grupo sugeriu um jantar numa esplanada famosa em Lisboa, por ser um sítio fresquinho mesmo no pico do Verão. Enfim, Ana e José aproximaram-se. Activou-se um íman. Acabaram a noite a conversar no jardim em obras situado perto da casa dele. As três semanas seguintes incluíram vários encontros. Mas Ana descobriu cedo que ele falava pouco na intimidade, transformando-se ela numa tagarela, que até ela própria desconhecia. Pelos vistos, José só era uma companhia animada quando estava entre amigos. Um dia, não aguentou e disse-lhe: "Acho que não estamos na mesma praia".
Boa continuação
Inadequada. A frase não podia ser mais inadequada. Tal como uma vez foi o "olaréquicu" do Diogo, cantado em plena missa, na cerimónia fúnebre do seu avó. Fez eco na igreja. Ouviram-se risinhos! Agora, estava prestes a fazer-se ao caminho do seu carro, deixando para trás as horas de bloqueio, em que o tempo parou. Desliga sempre do seu quotidiano nos funerais. Desta vez, alguém lhe deu os pêsames por engano, lhe apertou a mão por engano, além de lhe ter dito a frase mais bizarra, dado o quadro triste. Ainda se viam as campas por perto e o senhor barrigudo de camisola colada ao corpo, por causa da transpiração, despediu-se com duas palavras: "Boa continuação".
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Querido mês de Agosto
O seu primo mais indie surpreende a cada fala. Bárbara ouvia-o atentamente mais uma vez. Tinha-o o visto ao longe, de pernas ligeiramente abertas e braços cruzados, observando o pesar de todos os que se despediam do ente querido falecido. A conversa deu-se depois, a uns bons metros do portão de ferro do cemitério. Contou-lhe ele que a última vinda a Portugal - vive em Paris - foi para ajudar o Manel, com quem se dá bem desde miúdo e mantém contacto. Veio para o ajudar, pois um amigo comum telefonou-lhe para lhe dizer que o Manel ameaçava suicidar-se por causa da ideia do divórcio e da separação da filha que isso implicava. Não pensou muito, enfiou-se num avião e veio. Passou uma semana com o Manel. Falaram muito. "E o que aconteceu?", perguntou Bárbara. "O divórcio foi para a frente. E a ex-mulher surpreendeu-o em relação à filha. Fez de tudo para que esta se ressentisse o menos possível".
domingo, 1 de agosto de 2010
Jardim da Celeste
Pedro meteu-se na roda da conversa para dizer à Celeste: "A primeira vez que te vi estavas com os olhos colados ao ecrã da televisão a ver bailado. Perguntei-te então se gostavas de ballet". Elevando os olhos, Celeste mostrou-se mais atenta. Prosseguiu o Pedro: "Disseste que gostavas de ser bailarina". Eram dois miúdos. Passaram 30 anos desde esse episódio. Celeste e Pedro pouco se vêem hoje em dia. A conversa daquele grupo tinha começado por aí. Não tem havido casamentos, encontram-se em velórios. Era o funeral de um vizinho comum lá da aldeia. Celeste contou então que levou o filho para o ballet por causa da oportunidade que não teve. Pedro tem duas filhas gémeas que também andam no ballet: "Mariana tem jeito, tem um bom pezinho, segundo diz a sua professora". Celeste está hoje casada com o namorado de sempre, o tal que era alvo de contestação por parte de toda a família. Ricardo fumava, bebia, gostava de farra. E ela passava muitos fins de semana fora com ele. Havia na aldeia quem a visse como uma vadia. Os anos 80 não poupavam as mulheres mais livres. Mas Celeste sobreviveu aos olhares conservadores sem rancor algum. Via-se isso agora. O seu filho, porém, não aguentou a pressão dos amigos e, aos 13 anos, desistiu do ballet.
sábado, 19 de junho de 2010
That´s life
Na tentativa de encontrar o helicóptero, o miúdo levantou a cabeça (ouvia-se o barulho do aparelho a aproximar-se). De seguida, atirou um beijo para o ar e disse:"Adeus Saramago. É a vida!". A irmã que o levava pela mão deu-lhe uma esticadela e apertou-lhe a mão. Eu estava mesmo ao pé, ou à beirinha como dizem lá em cima. Tinha sete, no máximo oito anos e pouco deve saber da obra e muito menos do homem. Mas disse aquilo. Quando liguei a televisão e vi a chegada do corpo embrulhado no caixão, a cena com o gesto do miúdo impôs-se. Como me disseram no outro dia: as pequenas coisas são as que importam, as grandes são para toda a gente.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O triângulo amoroso
Mário apareceu saltitante na caixa do Multibanco. Cumprimentou a Mafalda e começaram logo a falar interrompendo-se pelo meio um ao outro. Observação número um: eram muitos palradores. Conversaram sobre o Jazz ao centro, em Coimbra, da digressão dele pelos Estados Unidos. Enfim, falaram, falaram. Até se balançaram um pouco quando recordaram a ida a Évora. A viagem foi animada, com o carro cheio de gente e os cds do Hugo de música indie. Rita ouvia atentamente. Entretanto, um grupo de três pessoas aproximou-se e uma delas barafustou: "Mas vão ao multibanco ou só estão a conversar?". A resposta do Mário foi certeira: "Não vamos a lado nenhum".
Cartas com números
"Hoje em dia, abre-se a caixa do correio e só se encontram contas para pagar. Cartas de amor, as ridículas, as especiais que nos faziam subir às nuvens em três segundos, são raras. Pode-se usar a net, é certo, mas não é a mesma coisa. Para uns, pode haver aqui uma evolução. Afinal, no mesmo instante sei que a outra pessoa está a ler o que eu escrevi. A tensão em tempo real, bem explorada, tem um potencial gigantesco", dizia a Ana. "Já me passei com o Zé assim", reagiu prontamente a Dulce. "Ninguém quer saber da tua vida íntima", atirou Maria. Bem dispostas, continuaram a conversa no andar de cima do Bica-me. "Haverá ainda muito por fazer neste domínio. Afinal, ali damos sinal de que estamos vivos para alguém. Os que seleccionam criteriosamente os amigos no facebook ou no gtalk conseguem ter ali uma vida social dupla, ou fortalecer a real, fraquinha que anda pela falta de tempo", prosseguiu a Ana. O mote da conversa tinha sido dado pela Laura. Laura tinha recebido uma carta manuscrita do seu ex-namorado Luís. "Foi uma pena que viesse tarde", começou por contar ela. "Estava a gostar de estar com ele, mas ele ainda não se tinha libertado da ex-namorada e trocou o meu nome pelo dela três vezes". Depois, contou ainda, por azar, a ex-namorada tinha o nome da sua chefe. "Havia muito eco"
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