quarta-feira, 9 de junho de 2010

O triângulo amoroso

Mário apareceu saltitante na caixa do Multibanco. Cumprimentou a Mafalda e começaram logo a falar interrompendo-se pelo meio um ao outro. Observação número um: eram muitos palradores. Conversaram sobre o Jazz ao centro, em Coimbra, da digressão dele pelos Estados Unidos. Enfim, falaram, falaram. Até se balançaram um pouco quando recordaram a ida a Évora. A viagem foi animada, com o carro cheio de gente e os cds do Hugo de música indie. Rita ouvia atentamente. Entretanto, um grupo de três pessoas aproximou-se e uma delas barafustou: "Mas vão ao multibanco ou só estão a conversar?". A resposta do Mário foi certeira: "Não vamos a lado nenhum".

Cartas com números

"Hoje em dia, abre-se a caixa do correio e só se encontram contas para pagar. Cartas de amor, as ridículas, as especiais que nos faziam subir às nuvens em três segundos, são raras. Pode-se usar a net, é certo, mas não é a mesma coisa. Para uns, pode haver aqui uma evolução. Afinal, no mesmo instante sei que a outra pessoa está a ler o que eu escrevi. A tensão em tempo real, bem explorada, tem um potencial gigantesco", dizia a Ana. "Já me passei com o Zé assim", reagiu prontamente a Dulce. "Ninguém quer saber da tua vida íntima", atirou Maria. Bem dispostas, continuaram a conversa no andar de cima do Bica-me. "Haverá ainda muito por fazer neste domínio. Afinal, ali damos sinal de que estamos vivos para alguém. Os que seleccionam criteriosamente os amigos no facebook ou no gtalk conseguem ter ali uma vida social dupla, ou fortalecer a real, fraquinha que anda pela falta de tempo", prosseguiu a Ana. O mote da conversa tinha sido dado pela Laura. Laura tinha recebido uma carta manuscrita do seu ex-namorado Luís. "Foi uma pena que viesse tarde", começou por contar ela. "Estava a gostar de estar com ele, mas ele ainda não se tinha libertado da ex-namorada e trocou o meu nome pelo dela três vezes". Depois, contou ainda, por azar, a ex-namorada tinha o nome da sua chefe. "Havia muito eco"

domingo, 2 de maio de 2010

Mandar à fava

Maria Cristina é filha de pais divorciados. Ainda hoje quando ouve gritos - tinha oito anos quando estes resolveram pôr cobro à vida em comum - fica perturbada. Não gosta. Em sua casa, fala-se baixo. Prefere o computador à televisão, também por causa do silêncio do Mac. A sua maior fantasia sexual é seduzirem-na enquanto lê um livro. Maria Cristina não consegue ter um namorado por muto tempo. Josefa teve influência contrária. Os pais eram um pouco hippies e sempre se deram bem. Notava-se que a ternura prevalecia nos momentos mais difíceis. O exemplo era positivo. O olhar embevecido que uma vez ou outra viu da mãe para o pai ou no sentido inverso era claro. Não foram feitos um para o outro, não era isso, ninguém o é, mas ficavam muito bem juntos. Bem, Josefa não consegue ter uma relação que avance além dos seis meses, pois o seu patamar de exigência é muito elevado. Dulce, por seu lado, cresceu com os avós maternos. E as suas relações são sempre curtas. Por causa deles. Eles perdem a paciência. É uma mimada. Luísa foi educada por uma tia e está a preparar o discurso para mandar o Tiago à fava. Simplesmente, está farta de se fazer passar por parva.

Bendita traição

Era a apologia da traição. Estava um frio difícil de suportar. As mãos foram parar ao rabito. Ao servirem de almofada, conseguiam manter-se quentes. De resto, a luz na esplanada estava óptima. Brilhante. Bem, voltando à traição, Júlia estava mesmo convencida de que a chave para os seus problemas foi aquela facadinha no namoro de três anos. "Fez-me ver o quão desequilibrada e cómoda era aquela relação. Uma traição é uma prova de fogo. Ou ficas ou vais embora". Ouvia caladinha, enquanto tentava que o frio não me desconcentrasse. Prosseguiu: "Foi óptimo. Em primeiro lugar estão os sentimentos, com tudo o que de misterioso e estranho que às vezes trazem agarrado. Assim fiz. Valeu a pena". E culpa, a sensação de culpa?. Respondeu ela: "Senti-me livre, por causa daquela coragem". Fez-se um silêncio. "Sim, e correu tudo bem". E então? "Fiquei com o Zé". Atirei: "Não tiveste coragem de deixar tudo para trás e tentar com o Pedro?". "Não gostei o suficiente dele para isso; há ali qualquer coisa que não bate certo. Não te sei dizer o que é. Mas quando cheguei a casa, agarrei-me ao Zé, anichei-me nele, e contei-lhe". Contaste? "Contei sem proferir uma palavra, disse-o mentalmente". Fechei o capítulo apenas com a frase audível:"Vou ficar contigo pelo menos até ao Natal". Ele riu-se e eu pulei na cama.

domingo, 21 de março de 2010

Um beijo difícil

Assim se cantava no filme: "Poder ver-te, é poder amar-te, e eu vejo-te em toda a parte, no passeio no café". Revia a obra prima e não me lembrava de ter reparado naqueles versos. Clássicos, claro. Simples também. Como andava a pensar na carta que lhe escreveria, achei que podia ir ali buscar a inspiração. Depois, fui à procura de vistas largas, esplanadas que nos tragam o mundo aos olhos, e juntei um facto só nosso. Tinha vários micro episódios por onde escolher, mas optei pelo beijo difícil. Afinal, não sabia como iria funcionar. O interior da boca tinha uma teia de arames e provavelmente ele nunca teria encontrado um céu da boca assim. Já para não falar nas massas ao interior dos dentes. Quando parámos de nos beijar, ele disse: "Vamos comer o resto do bolo de maça a tua casa?".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

sábado, 31 de outubro de 2009

Também vooo

Cheguei atrasada ao aeroporto. Sabem porquê? Tinha-me esquecido do passaporte. Tive de o ir buscar a casa a correr. Foi tudo tão rápido e intenso, como se todo o percurso tivesse sido feito em cinema 3D. Houve um autocarro que quase engoliu o taxi ou o passava a ferro. Brutal. Quando finalmente me sentei a fazer tempo para o embarque, respirei fundo. Preparada para mergulhar no meu exercício mental preferido, a saber, o que de melhor me aconteceu naquele dia (eram 23 horas), eis senão quando sou interrompida muito ao de leve, por uma voz ao telemóvel que dizia a alguém: "Parto daqui a 40 minutos para Moçambique. Sim, sim, telefono quando chegar". Tinha o meu destino. Olhei. Quando me sentei no avião, sentou-se ao meu lado. Perguntei-lhe se íamos ao mesmo. Viagem de trabalho? Sim, sim. E sim também para a melhor viagem longa, melhor companhia para viagem longa. Acabámos por passar 10 dias juntos. Quando nos despedíamos, para qualquer coisa básica que fosse, do tipo ir comprar cigarros, o coração encolhia. Depois, ele voltava e o músculo apanhava o ritmo. Tínhamos de partilhar quarto com outros dois colegas de trabalho, portanto, só nos restava ficar a falar no bar no hotel, embalados pela música kitsch do pianista de serviço. Nunca dormi tão pouco na minha vida. Passava pelas brasas de dia: cinco minutos no ombro dele, outros cinco na casa da banho, uns minutos no banho.

A minha bicicleta é melhor do que a tua

Às vezes sinto-me fernando pessoa, entre dúvidas e versos tristes. Às vezes, finjo ser psiquiatra da minha pessoa, levo-me para o meu sofá e deixo que os desabafos se soltem à vontade, ainda que não abra a boca. Por momentos, naquela tarde cheguei a pensar: um dia lavaria as mãos contigo. A primeira vez que o te o vi fazer, fiquei encantada. Curvaste-te sobre o lavatório e lavaste-as bem, com firmeza, de forma despachada, durante o tempo certo. Passei o resto da noite a pensar em como eras diferente do meu ex-namorado. Quanto mais pensava nisso, mais me apetecia convidar-te para irmos a Amsterdão. No paraíso das bicicletas, iríamos dar-nos bem. Por isso te convidei. Mas disseste que não podias. Só ouvi o não. Não ouvi o resto. Fui com o Mário.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Defeitos

Disse à Carolina que tinha medo das pessoas normais. Ela riu-se e desvalorizou. No sábado seguinte, no Clara Clara, esplanada do jardim da Feira da Ladra, veio ter comigo para me dizer, que sim, que tinha razão. Afinal, dos que conhecemos as falhas podemos esperar menos surpresas, são mais ou menos previsíveis. Atirou-me, no entanto, uma frase curiosa: todos temos defeitos. Fiquei a pensar nos meus traumas conscientes, nas reacções descontroladas e desproporcionais que tenho diante de determinados obstáculos. Do pavor de acordar sem reconhecer onde estou. É mesmo isso, dizia para mim. Passei o resto da tarde a escrever as falhas das pessoas que conhecia e à medida que o fazia, ficava maior o apego por elas. E o exercício relaxou-me. Afinal, os defeitos podem não ser muito importantes. São normais.

Adormecer

"Onde te vi despir, regresso agora, para adormecer ou chorar". A frase está ao pé do Liceu Camões, em Lisboa, por baixo do muro de fundo azul, nem escuro nem claro, que fica na lateral, quando se sobe. Aparece logo depois do veterinário, à esquerda. Está pintada com um desenho de letra redondinho. Entra como um verso na nossa mente enquanto o nosso olhar se desvia, sem ordem, para o prédio da frente. Deverá dirigir-se a alguém que ali mora. Já lá está há um mês. Ontem resolvi procurar as personagens deste epílogo e colei então um papel na porta do prédio. "Procura-se destinatário da frase: "Onde te vi despedir, regresso agora para adormecer ou chorar". Deixei o contacto. Já me mandaram um email.