terça-feira, 14 de maio de 2013

Felismina

Felismina andava à procura dos seus defeitos, perseguia-os. a culpa era tanto dela, que se castigava por dá cá aquela palha. Um dia, certa vez, naquele mês, cansou-se da busca e viu, finalmente, de outra maneira. Não eram defeitos. era só uma perseguição estéril. e o cansaço desapareceu.

beleza

a beleza da sinceridade não se supera. não há vestido nem verso mais marcante. pele em formato palavra. Cheia de sinais, pequenas sardas. Um grão de areia na Adraga, praia escondida entre montanhas. A beleza da sinceridade descobre árvores onde outros vêem jardins.

domingo, 12 de maio de 2013

viagem de comboio

é porque não somos simples que procuramos a simplicidade.

terça-feira, 7 de maio de 2013

cães de louça

A colecção de cães de louça não é bem uma colecção. São cinco, ao todo. Vieram parar cá a casa por acaso. Cada um traz uma história. Nunca se partiu nenhum, talvez por estarem fora dos aposentos reservados à cozinha. O maior foi oferecido aos meus pais no gozo e reencontrado exactamente na véspera da mudança de casa. O que veio de Moscovo foi comprado enquanto decorria um assassinato à porta do apartamento onde estava instalada. Quando cheguei à entrada do prédio, havia um lago de sangue e salpicos em redor. Subi rapidamente as escadas. Energicamente, de dois em dois degraus. Não quis usar o elevador. A meio caminho, um vizinho nitidamente perturbado, de mãos trémulas, fez sinal, levando o dedo à boca, para me calar. Sentada no sofá extra mole da sala retirei o papel vegetal do embrulho do cão e dei por mim a pensar na morte e na sorte que foi ter estado presa uma hora e meia na loja de artesanato. Primeiro, tive um bloqueio e não me conseguia decidir. Tinha planeado uma compra e não duas. Depois não encontrava o cartão visa em lado nenhum.

torradeira Crussel

faço café numa italiana para que o cheiro do café me encha a casa. antes de começar tem de haver uma introdução. não a passo à frente. façam-se torradas a seu tempo.

acordar

não vieram os melros cantar para ao pé da minha janela. acordei sem pássaros

viu

- tia, a mariana diz que se contarmos até 8 duas vezes em frente ao espelho, aparece o nosso namorado.
- isso não faz sentido nenhum. isso não faz sentido nenhum.
- pensei em ti e foi o que lhe disse (gesticula, abre os braços e as palmas da mão, estica os dedos).
- e ela? (a andar em passo lento no jardim fernando pessa)
- que viu o namorado, o rodrigo do 2.º A

casa da lista amarela

Era a primeira vez que passava férias acompanhada de duas amigas. Metiam-se na cama entre as 22 e 23 horas, depois do regresso do café da aldeia. A pedalar, iam de bicicleta, era uma galhofa pegada. O concurso da melhor piada. Bocas sobre colegas de escola, namorados improváveis, professores desajeitados ou segredos das festas de garagem. Interrompiam-se, riam-se muito. Faziam imitações. À terceira noite, conhecerem os amigos do Alfredo, o neto do vizinho da casa azul, que vivia no Porto. Duas noites depois, estavam a combinar um encontro, por volta da meia-noite, no pinhal colado à placa de entrada para a aldeia. Imitando as séries televisivas e os livros da Patricia e dos Sete, os Cinco eram para miúdos, planearam ao detalhe o encontro nocturno. Alguém bateria na janela três vezes e faria depois uma pausa. Dez segundos depois, repetiria os toques e sumiria. Saltariam então da janela em pés de veludo. Assim foi. O coração de Luisa nunca bateu tão forte. Nem na piscina, após as provas de bruços do segundo período. Teve de o apertar ao peito. Para se acalmar, mas também com intenção de abafar o som. Havia pouca claridade na estrada, as árvores ganharam cinzento. Ouvia-se o latido do cão vindo da casa de lista amarela. Não se lembra da temperatura, por isso não estaria frio. Mês de julho. Vestiam apenas camisolas largas, pintadas durante a tarde, depois do banho no tanque, que podiam ser dos irmãos mais velhos, não chegavam aos joelhos. Deram passos largos e saltaram estrada fora. Rodopiaram e dançaram para afastar o medo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

banho

Não suportava a inocência dela. Os princípios éticos e morais apurados. Davam-lhe superioridade. Inferioridade, para ele. Era demasiado limpa. Ela apresentou-lhe outra versão. Gostava de rock e algum punk, sons sujos, portanto, por alguma razão. Os grãos de areia não o convenceram. A angústia mantinha-se. Ele era um poço de defeitos, não queria que ela se banhasse nele.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

cravos

saiu-lhe das mãos um molho de cravos vermelhos. não cheiravam a nada, estávamos em 2009, o ano em que Lisboa perdeu os aromas. Os lisboetas tinham de imaginar o cheiro das manhãs luminosas e das sardinhas assadas na brasa. Foi um ano vivido em sensação de falta. Os melros voavam sem companhia, por lapso, cortaram-se árvores saudáveis nas ruas erradas. Os chineses, esses, começaram a ser vistos nas ruas, a fazer parte da paisagem; a avenida almirante reis, por exemplo, lavou-se e ganhou nova vida. Quando não me oferecem um molho de cravos no dia de 25 de abril, compro-os eu. Assim que agarro neles, vem para mim a sensação de conquista. não aos mouros, minha, nossa.