sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

na palma da mão

Josefina escreveu duas frases distintas em cada uma das palmas da mão e pediu-lhe para escolher: direita ou esquerda? Ele disse esquerda. Josefina virou o punho e abriu os dedos devagar. As pálpebras dele caíram. oh. Ela agarrou-se a ele. Sem reagir, ele manteve os braços quedos. "Ainda não sei".

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

baldes


o pai de uma amiga 
quis suas cinzas espalhadas
pela praia
assim foi, planaram e caíram
esqueceu-se da infância
das férias e da gritaria
entre primos
a areia pertence
aos bolos das crianças

algodão

Fui ver o mar
fui saber de mim
diante dele olhamos para trás
por dentro da retina
vemos quem somos
como nenhum outro espelho mostra
entorpecemos
ficamos em roupa interior
gasta pelo tempo


domingo, 9 de dezembro de 2012

culpa

deixou de se culpar. Foi um avanço gigante.

almoço

- vamos almoçar?
- duas sugestões.
- vamos almoçar a dois sítios?
- ahaha. De enfiada, se quiseres.
- ok. É a primeira vez.

teclar

Teclar
teclar
foi assim o dia todo
doem-me as pontas dos dedos
estou cansada
tac, tac, tac
abafado
não páro enquanto
não terminar
vai mudar o ritmo
dos dias
ficar mais acelerado pelas manhãs
pouco importa
andava lenta, a passo de caracol
ainda bem que não desisti
não me distraí
continuei
continuei
a teclar
teclar
estou indo

um ponto

Corria, desviava-se agilmente das pessoas à sua frente, e corria, sem parar. Depois dos degraus, na plataforma de cima, a vista. Os comboios que se aproximavam e ganhavam tamanho e os que partiam e perdiam. Ficava a vê-los desaparecerem num ponto. Entretanto, ouviu o seu nome e voltou. Fez o caminho inverso. O avô esperava-a. Não se zangava. Confiava. Voltava direitinha. A estação da Pampilhosa era assim na sua infância. Muito movimentada. Uma cidade de linhas férreas, onde se cruzavam centenas de desconhecidos e ouvia de cinco em cinco minutos informações de chegadas e partidas. Todos partiam.

o meu primeiro diário

Os emails permitem esse exercício fantástico que é mandar mensagens para nós próprios em meio segundo. Eu cá mando de tudo. Dicas de livros, músicas, álbuns, ideias para artigos, versos desgarrados, receitas, declarações de amor, conselhos de amigos, ruas a descobrir, coisas a evitar. Foi aí que dei por mim a pensar que estava a fazer dos emails que envio para mim própria uma espécie de diário, ainda que desorganizado, substituição de uma agenda de papel, que também tenho, igualmente repleta de rabiscos indecifráveis. Foi aí que decidi que vou oferecer diários às minhas sobrinhas. Vou encaderná-los e arranjar separadores para os capítulos aqui descritos. Obra caseira. Papéis lindos. Também tive os meus diários, um atrás do outro, quando era miúda. Não escrevia grandes prosas, um, dois parágrafos, fazia desenhos, colava recortes e dava-lhe legendas, guardava lembranças, sinais de interesses amorosos, mas lembro-me de olhar para eles e de achar que estava diante da caixa dos meus pensamentos mais preciosos. 





Pássaros

Há quem goste de animais como se fossem pessoas. De pessoas como se fossem objectos. De objectos como se fossem animais. E quem não saiba tratar de plantas. Devem ser abanadas para facilitar o processo de fotossíntese? Assim faço. Faço-o há muito tempo. Abro a janela e a cortina para que possam receber banhos de sol nos dias luminosos e abano as suas folhas e ramos de vez em quando. Mas não sei onde fui buscar a ideia. Pensando bem, saltou do mesmo sítio da dos apreciadores de aves. Quem gosta muito de pássaros, tem desejos acima da média.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

se cá nevasse

tenho saudades da neve
de lhe tocar, fazer bolas
de a ver desfazer a seguir
do frio firme que a acompanha.
das palmas das mãos a racharem
de conseguir ter certezas:
se estou quente no peito,
estou viva da silva.
A luz dos raios de sol reflectida na neve
enche-me de futuro.
Tenho saudades do que é raro.