domingo, 9 de dezembro de 2012

o meu primeiro diário

Os emails permitem esse exercício fantástico que é mandar mensagens para nós próprios em meio segundo. Eu cá mando de tudo. Dicas de livros, músicas, álbuns, ideias para artigos, versos desgarrados, receitas, declarações de amor, conselhos de amigos, ruas a descobrir, coisas a evitar. Foi aí que dei por mim a pensar que estava a fazer dos emails que envio para mim própria uma espécie de diário, ainda que desorganizado, substituição de uma agenda de papel, que também tenho, igualmente repleta de rabiscos indecifráveis. Foi aí que decidi que vou oferecer diários às minhas sobrinhas. Vou encaderná-los e arranjar separadores para os capítulos aqui descritos. Obra caseira. Papéis lindos. Também tive os meus diários, um atrás do outro, quando era miúda. Não escrevia grandes prosas, um, dois parágrafos, fazia desenhos, colava recortes e dava-lhe legendas, guardava lembranças, sinais de interesses amorosos, mas lembro-me de olhar para eles e de achar que estava diante da caixa dos meus pensamentos mais preciosos. 





Pássaros

Há quem goste de animais como se fossem pessoas. De pessoas como se fossem objectos. De objectos como se fossem animais. E quem não saiba tratar de plantas. Devem ser abanadas para facilitar o processo de fotossíntese? Assim faço. Faço-o há muito tempo. Abro a janela e a cortina para que possam receber banhos de sol nos dias luminosos e abano as suas folhas e ramos de vez em quando. Mas não sei onde fui buscar a ideia. Pensando bem, saltou do mesmo sítio da dos apreciadores de aves. Quem gosta muito de pássaros, tem desejos acima da média.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

se cá nevasse

tenho saudades da neve
de lhe tocar, fazer bolas
de a ver desfazer a seguir
do frio firme que a acompanha.
das palmas das mãos a racharem
de conseguir ter certezas:
se estou quente no peito,
estou viva da silva.
A luz dos raios de sol reflectida na neve
enche-me de futuro.
Tenho saudades do que é raro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

emails

- Escreveste-me pela primeira vez um email além do subject.
- não tinha reparado nisso. desculpa.
- foi preciso mandar-te um poema.
- pois foi.

ego grande, ego pequeno

Quando alguém de ego grande encontra alguém de ego pequeno é uma desgraça. Um engole o outro. Se alguém de ego médio encontra alguém de ego médio, entediam-se. Um ego grande nunca se interessa por um ego maior do que o seu. Um ego pequeno está sempre com medo de se deixar levar por um ego mínimo. Na luta de egos, aconselha-se discussão. Quanto mais viva for, mais perto ficam um do outro.

braços

Josefina tem fixação por braços. Uns braços bonitos são uma ponte. E atravessar pontes sempre foi a melhor parte das viagens longas de carro que fazia em família. Avisavam-na: "Vem lá uma ponte". Preparava-se para o momento. Abria até meio a janela do automóvel, inclinava a cabeça para a direita e deixava-se ficar. Foi assim enquanto vivia com os pais. Depois, depois, cresceu e substituiu as pontes por braços.

invisível

Chega a casa, abre a janela. Substitui os cigarros por um copo de vinho. Pega no copo. A música começa a tocar. Um embalo calmo. Simone abana-se e fecha os olhos. Viaja até ao pequeno almoço do outro dia. Esplanada da Senhora do Monte, na Graça. Estava frio, o nariz congelou e pingou. Ele falou sem parar. 80% contra 20%. Passou o tempo a limpar o nariz. Ouviu, ouviu. Simone esteve mais uma vez invisível. Só não é invisível quando chega a casa.

perfeitos

-Tem amores perfeitos?
- só amarelos.
- Hum, dessa cor não gosto.
de outra vez, nova florista.
- Tem amores perfeitos?
- estão esgotados, menina.
- desde quando?
- setembro. agora não se vendem.
- posso fazer uma encomenda?
- claro, passe na próxima semana.
na quinta-feira seguinte.
- já chegaram os amores perfeitos?
- vieram, têm duas cores.
-oh, deixe-me ver.
- então?
- de duas cores, nem pensar.
30 dias depois
- a da bicicleta não ficou de ir buscar os amores perfeitos?
(esqueci-me dos amores perfeitos na Almirante Reis)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

panelas e colheres

Para contrariar as dúvidas férteis, deu-lhe poesia. Da simples, básica. Nada de palavras difíceis para enfeitar as ideias. Baseada no elementar. Na lua, no vento e na claridade. Não resultou. Levou então as dúvidas a dar uma volta. Pegou na bicicleta e pedalou, pedalou, pedalou. Quando parou, ao pé do Tejo, percebeu. As dúvidas desfazem-se na cozinha, cozinhando.

deitar fora

Josefina tinha o vício de procurar a verdade. Era um vício velho. Até o escondia por vergonha. Vestia roupas alternativas e usava sabonetes de mel para disfarçar. Recusava o tema nas conversas de amigos. Entretanto, há uns anos descobriu novo epílogo para o processo. Quando descobria a verdade, deitava-a fora.