sexta-feira, 5 de outubro de 2012

deixou cair os braços pelos ombros dela abaixo.
ela sentiu um peso sem peso em cima da sua pele.
eram leves.
nasceu um quente físico entre a barriga e o peito.
Abraçaram-se, sem deixar folga nenhuma.
Já estavam de camisolas de lã.
ainda fina.
eram vestes baratas
mas naquele momento
viraram caxemira.
ele ficou gago e disse-lhe
uma frase comum,
que ela esqueceu em dois minutos.
No taxi, continuou a digerir a informação.
Afinal, ele conhecia as músicas de cor
que ela conhecia.
Afinal, ele sabia tanto
do que ela sabia.
afinal, podemos saber o mesmo
e não saber da mesma maneira

terça-feira, 2 de outubro de 2012

instagram

- Se não queres ser minha amiga no Instagram, não me chateio.
Gostava era de saber o motivo.
- Não fui lá!
- Não fujas à questão. Andas a postar fotos em camisa de dormir,
rendeste-te?
- Ahahaha. O meu entendimento de sexy não deve coincidir
 com o teu... suspeito.
- Então?
- Para mim, os talhos são pornográficos.
Mudo de passeio, mal avisto um nas proximidades.

domingo, 30 de setembro de 2012

quente

Trouxe-lhe uma folha seca em formato de coração mal recortado. Não tinha dinheiro para mais aquele mês. O dentista ficou-lhe com a poupança de Agosto. Arminda pegou nela pelo caule e colocou-a no livro "Uma história do amor", de Nicole Krauss. Fez dela um marcador. Arminda transformava as folhas em marcadores de livros em miúda. Conhecia bem a textura, o cheiro que largam. Era frequente Joaquim fazê-la viajar mentalmente até uma zona de conforto qualquer. Tinha esse dom.

desafinado

Alberto era meticuloso no tipo de contacto que estabelecia com amigos novos. Erros do passado fizeram dele um sujeito cauteloso. Quando nos aproximamos muito, arriscamo-nos a descobrir manias estúpidas, falhas graves de carácter, aspectos perversos. Alberto preferia não explorar em demasia certos convívios e evitar chegar a esse ponto. Já tinha o baralho completo. Chegavam-lhe os amigos antigos. Os das suas preocupações. Já lhe davam tantas. No amor, porém, não conseguia travar o processo. Tinha uma curiosidade insaciável. Transportava para os sonhos o possível significado de uma frase atirada para o ar. Enchia-se de felicidade enquanto recordava o olhar deixado à foto da senhora do campo, pendurada no Povo, num segundo, para logo a seguir, questionar as neuroses, os traumas, as incoerências pequenas e grandes, e as mais complexas, as médias. Apaixonava-se pelos deslizes, pelas imperfeições, pelo lado desafinado. Por isso, amava muito mais a Dulce do que o Mário alguma vez gostaria.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

ploc, ploc

cortou as cebolas sem os óculos da piscina.
não se queria proteger desta vez.
cortou, picou, deu as voltas todas.
a cebola desfez-se,
meteu-se na panela,
deu sabor à sopa.
saiu para a mesa 7 uma sopa de lágrimas salgadas.

blá, blá

queria-te no meu silêncio.
não quiseste vir.
Falavas demais.


toc, toc

bateram à porta,
em vez de tocaram à campainha.
- quem é?
- sou a palavra de deus.
- deus não é meu amigo.
- trazemos um recado.
- não estou interessada.
- o mundo vai acabar amanhã.
- eu acabo com ele antes disso.
- deus quer fazer-lhe o almoço.
- almoço?
eis que surge uma nota por baixo da porta
- sou o pedro, trago morfina

separações

em cada separação há uma pequena morte.
algo morre para sempre,
ainda que fique perto de nós.
faça a mesma rua ou coma
o mesmo nestum com mel.
Sei que estará a meter a colher na boca
neste instante.
em cada separação, há um desencontro
um desencontro para sempre.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Desaparecidos

Não estava ninguém na sala de espera. Um silêncio opaco. Em vez de duas pessoas na recepção, apenas uma, que demorou dois minutos a chegar. "Desculpe, já vou". Uma sensação de vazio. Há dois anos, Maria esperou 40 minutos para que lhe tirassem sangue das veias. Estava a sala repleta. Havia gente nos corredores com requisições verdes presas aos dedos. Ouvia-se falatório de quem se conhecia e de quem se ficou a conhecer naquela manhã, no laboratório de análises. Há dois anos, pairava a desconfiança, o fantasma, mas não sentia ainda a crise na pele. "O que se passa, é da greve do metro?". Abanou a cabeça ligeiramente para a esquerda e para a direita. "Agora é sempre assim. Evita-se o médico, não se fazem análises". O corredor do laboratório, sem quadros, despido, tinha crescido em comprimento. Maria sentou-se. "E os velhotes?". "Desapareceram".

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

vida

- as plantas morreram?
- não me parece que estejam a dormir.
- secaram.
- morreram.