terça-feira, 18 de setembro de 2012

gato ou cão

- Tia, quando se sabe se se gosta de alguém?
- hum, aí há gato. Conta lá.
- Não há gato, há cão.
- Ahahah.
- Começa por se pensar nessa pessoa.
- A toda a hora?
- No início, não. Vai aumentando de frequência.
- Só à noite, no começo, é isso?
- De noite, há menos ruídos e distracções, por isso a nossa cabeça se reserva a outro tipo de pensamentos. Diria que a poesia tem mais a ver com noites e manhãs.
- Ainda não percebi bem o que é a poesia.
- Leva o seu tempo.

Malditos

Jurar, jurar. Quem mais jura, mais mente, quem enaltece em exagero um aspecto, procura esconder algo se não dizer exactamente o contrário. As palavras traem as ideias em estado puras. Coitadas. Por elas, não seria assim. Fazem-lhes mau uso e lá estão elas a enganar toda a gente. Malditos.

apagador

A dor física é do pior que há. Tira a racionalidade a um filósofo. Perde-se a vista. Engole qualquer preocupação. Bem, por esse lado sobra uma parte boa. Vá lá. Depois da facada, vem a cicatriz, depois da cicatriz, a história para contar. Algumas apagam-se completamente, outras deixam rasto.

o dia a custo zero

Estava no seu dia a custo zero. Almoçar em casa, tarde no jardim, garrafa de água na mão, livro no saco, ao pé da prenda dele. Levou-a com ela. Dava-lhe um certo conforto tê-la por perto. Ninguém apareceu à hora combinada e ela agradeceu às árvores pelos atrasos. Estava tão bem caladinha. Falou demasiado a semana inteira, tinha gasto as 21 mil palavras disponíveis. Estava tudo certo, estava tudo certo, depois de estar tudo errado.

Pata

Enquanto ela falava, falava, os olhos dele acompanhavam cada vírgula. Ela inclinava a cabeça e ele reagia sempre com outro movimento qualquer. A cadela colou-se aos pés da Josefina assim que chegou à esplanada. Estacionou ali de forma familiar. Quando chegou a altura de ele dominar a conversa, Josefina colocou as mãos entre os joelhos, fazendo uma sandes. Assim ficou, ligeiramente inclinada para a frente. Tinha-lhe sido diagnosticado zona, não podia encostar as costas à cadeira. Soprava um vento suave e ela lembrou-se do quanto Miguel gostava de chuva e tempestades, tanto quanto ela se perde de amores pelo vento. Coisas que passam pela cabeça sem que se faça esforço algum. A Pata, o nome da cadela, mexeu-se um pouco. Tocou-lhe na perna. Josefina afagou-lhe o pêlo preto brilhante. Uma e duas vezes. Ou mais. Pedro, o seu dono, gostava de estrelas e sabia tudo sobre elas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

like

- não me deixes um like protocolar
- não o faria.
- porquê?
- ando a estudar as microdecisões e a tentar perceber como elas nos mudam a vida.
- e o que tem isso a ver com um like?
- já te explico. não são as decisões, em grande, que estiveram a marinar, antes de saírem cá para fora, que fazem a diferença. as pequenas já o fizeram. nem nos apercebemos disso.
- e o que tem isso a ver com um like?
- um like pode ser o princípio de uma microdecisão

costureira

as fantasias são feitas exactamente à nossa medida, são os filhos que os filhos não são

colchão pikolin

Apertou a folha na mão
até que se desfizesse
Estava seca
Mariana sabia que
tinha de sair da sua zona de conforto
deixar o bairro
Desfez-se em pedaços
Estaladiços
O seu cérebro estaria espalmado,
naquele instante,
como um colchão.
Mariana apanhou o comboio
da linha de Sintra e
saiu em Cascais.
Quando voltou,
as ideias estavam chocalhadas,
removidas e a decisão tomada
Não era preciso mudar nada por fora,
apenas por dentro





domingo, 9 de setembro de 2012

simples

Há músicas tristes que nos fazem felizes.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

substitutos

Fazia tudo aos pares. Tomava dois cafés seguidos, postava duas músicas de cada vez no facebook, saía sempre com duas pessoas em simultâneo, comia duas peças de fruta de enfiada, optava sempre por duas bolas de gelado. Fazia tudo aos pares, embora preferisse os números ímpares. Nasceu num dia ímpar, teve um filho num dia ímpar, foi operada num dia ímpar, sabia que iria morrer num dia ímpar. Fazia tudo aos pares com medo que alguma das partes falhasse.