terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pata

Enquanto ela falava, falava, os olhos dele acompanhavam cada vírgula. Ela inclinava a cabeça e ele reagia sempre com outro movimento qualquer. A cadela colou-se aos pés da Josefina assim que chegou à esplanada. Estacionou ali de forma familiar. Quando chegou a altura de ele dominar a conversa, Josefina colocou as mãos entre os joelhos, fazendo uma sandes. Assim ficou, ligeiramente inclinada para a frente. Tinha-lhe sido diagnosticado zona, não podia encostar as costas à cadeira. Soprava um vento suave e ela lembrou-se do quanto Miguel gostava de chuva e tempestades, tanto quanto ela se perde de amores pelo vento. Coisas que passam pela cabeça sem que se faça esforço algum. A Pata, o nome da cadela, mexeu-se um pouco. Tocou-lhe na perna. Josefina afagou-lhe o pêlo preto brilhante. Uma e duas vezes. Ou mais. Pedro, o seu dono, gostava de estrelas e sabia tudo sobre elas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

like

- não me deixes um like protocolar
- não o faria.
- porquê?
- ando a estudar as microdecisões e a tentar perceber como elas nos mudam a vida.
- e o que tem isso a ver com um like?
- já te explico. não são as decisões, em grande, que estiveram a marinar, antes de saírem cá para fora, que fazem a diferença. as pequenas já o fizeram. nem nos apercebemos disso.
- e o que tem isso a ver com um like?
- um like pode ser o princípio de uma microdecisão

costureira

as fantasias são feitas exactamente à nossa medida, são os filhos que os filhos não são

colchão pikolin

Apertou a folha na mão
até que se desfizesse
Estava seca
Mariana sabia que
tinha de sair da sua zona de conforto
deixar o bairro
Desfez-se em pedaços
Estaladiços
O seu cérebro estaria espalmado,
naquele instante,
como um colchão.
Mariana apanhou o comboio
da linha de Sintra e
saiu em Cascais.
Quando voltou,
as ideias estavam chocalhadas,
removidas e a decisão tomada
Não era preciso mudar nada por fora,
apenas por dentro





domingo, 9 de setembro de 2012

simples

Há músicas tristes que nos fazem felizes.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

substitutos

Fazia tudo aos pares. Tomava dois cafés seguidos, postava duas músicas de cada vez no facebook, saía sempre com duas pessoas em simultâneo, comia duas peças de fruta de enfiada, optava sempre por duas bolas de gelado. Fazia tudo aos pares, embora preferisse os números ímpares. Nasceu num dia ímpar, teve um filho num dia ímpar, foi operada num dia ímpar, sabia que iria morrer num dia ímpar. Fazia tudo aos pares com medo que alguma das partes falhasse.

Silêncio

José passou um mês, algures na Índia. Não sabia ao que ia. E encontrou um retiro espiritual destinado aos que querem limpar a mente. Durante 30 dias propôs-se conviver com 55 pessoas, abdicando do uso das palavras. Ali eram proibidas. Não podia falar. Apenas conhecia a Maria, a sua melhor amiga, que com ele aceitou a aventura de ir sem destino certo até onde fosse e lhes apetecesse e o dinheiro deixasse. Em dois dias, fez quatro, cinco amigos. A aproximação baseou-se nos olhares meigos e nas escolha do local para fazer as refeições. Dirigiam-se sempre para o mesmo canto. A meio do mês tinha-se habituado. Começou a ser natural escutar o estômago em funções. Passou a ouvir em bom som o que acontecia no interior do seu organismo. E os grupos foram-se solidificando. A dez dias do fim, Maria começou por se encostar ao ombro do Chris na altura da sobremesa. Ficavam colados e quietos. A seis dias do fim, faziam-no nas pausas dos passeios a pé. A três dias do fim, nos intervalos da exibição dos filmes. Mudos, claro. No último dia, abraçaram-se e despediram-se.






Cinco anos

- olá. parabéns!
- olá, olá. Parabéns?
- faz hoje cinco anos que acabámos.
- Só tu, como te foste lembrar disso.
- agora, a esta distância, foi bom ter acontecido, já viste?
- sei lá se foi bom, aconteceu. Fez sentido naquela altura. mas não te dou parabéns. que parvoíce.
- estás a chamar-me parva?
- estou
- ainda bem que acabámos.
- ainda bem que és parva
(caiu a ligação)
- caiu a chamada. Não és nada parva. eu é que sou parvo.
- somos dois parvos.
- vou desligar, ok?
- não consigo ser eu a desligar, já sabes.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

bilhete de avião

Josefina tirou férias do passado.

domingo, 1 de julho de 2012

azul açoriano

Passava o chuveiro em movimentos circulares por cima do coração. Uma e outra vez. Estava no banho e o ar embaciado. De repente, nasceu-lhe a imagem de um umbigo, um umbigo bem desenhado, pronto a crescer. À medida que foi alargando, alargando, começou a brotar água das profundezas e em pouco tempo formou-se um lago. Um lago tranquilo de azul açoriano. Foi então que deu por si a procurar o barco de papel que tinha dobrado na pastelaria Tifani, dois dias antes. Foi fácil encontrá-lo. Estava onde o tinha posto. Na primeira gaveta do armário. Pegou nele e, com a delicadeza mais fina que imaginou, colocou-o na água. Simples. Primeiro, houve equilíbrio. Depois veio o naufrágio. Pelo meio, um lago descontrolado, uma banheira oceano.