quarta-feira, 18 de abril de 2012
sismo 2012
O encanto das lojas tradicionais seduz-me. Têm vida. Cheiro com identidade. Encontro marcas de um passado que não foi o meu, mas que sei que foi de todos. As lojas tradicionais são sobreviventes. Quando entro numa, sinto-me um sobrevivente, só não sei muito bem de que catástrofe.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
tim tim por tim tim
José sentou-se e ficou ali de boca fechada. Ela queda ficou. José pediu um chá verde, pouco quente, e uma torrada com manteiga. E disse-lhe que não sabia como começar. Tinha uma coisa para lhe contar, mas não tinha descoberto o melhor início. Sentia um nó na garganta. Ela propôs-lhe uma ordem contrária: do fim para o princípio. José tentou. Fixava-a nos olhos e desistia. Não conseguia. Maria perguntou-lhe se ele estava decidido. Ele respondeu-lhe que não sabia, só tinha uma certeza, sem falar com ela não podia ficar. Passaram 15 minutos e nada. Maria tocou-lhe na mão e despediu-se. Não se pode esperar infinitamente pelas as palavras dos outros. Saiu dali convencida de que não havia nada a fazer. Andou em passo largo até casa, ultrapassou um jovem de calças descaídas com a roupa interior à vista. Ainda identificou os desenhos de umas gotas de água cinzentas. "Lágrimas?", passou-lhe pela cabeça. "Chuva ou lágrimas?". Quando chegou a casa, abriu o frigorífico, retirou um um iogurte liquido, fechou bem a porta e ligou o computador. Lá estava: um mail dele a contar tudo, tim, tim por tim, tim. Com os pormenores que ela jamais perguntaria. Escrevemos tanta coisa que não falamos. Falamos tanta coisa que nunca escreveríamos.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
coisas que se estragam
Só se estraga o que era bom
e se era bom, funcionava
e se funcionava, era útil
e se era útil, faz falta
e o que falta é o que nos move.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Árvores na cidade
São precisas mais árvores na cidade.
Os troncos fortes agarrados à terra inspiram certezas.
As folhas sujeitas ao vento dão-nos a banda sonora, embalam.
Não sei porque não plantam mais árvores na cidade
se sobram canteiros vazios.
Uma árvore não pede para ser levada a passear todos os dias,
nem obriga a uma muda da areia regular.
A árvore é a coisa mais simples que há.
E os seus ramos sempre foram o meu sonho de braços
sábado, 21 de janeiro de 2012
no dia em que cresceu
Quando a Dulce se olhou demorada e profundamente ao espelho, como lhe desafiou a Marta a fazer, descobriu uma nova percepção difícil de aceitar. Era um pouco feia. Pelo menos, menos bonita do que se imaginava na maior parte do tempo dos seus dias. O espelho de manchas castanho dourado que tinha à sua frente mostrava-lhe traços desequilibrados. Se se visse de fora, será que se apaixonaria por ela? Lembrou-se da sua avó, do que lhe dizia vezes sem conta. Da avó que tinha dificuldade em dizer a idade, por achar que o número não lhe pertencia. Dulce nunca teve problemas com a sua imagem. Sempre actuou como se fosse dotada de uma beleza mediana ou acima da média, caso se comparasse com quem costuma ver no metro à hora de ponta. Aos olhos dos outros, a forma como a fitavam, confirmavam-no. Achava ela. Lá em casa, a perspicácia, a reacção rápida, energia, e boa disposição bastavam. A vitalidade e o humor é que interessavam. No dia em que se observou de outra maneira, cresceu.
Inverno
Os amores de Inverno duram mais. Ninguém quer sair cedo da cama. Nem que seja pelo quentinho das mantas ou edredon. E dá-se tempo.
veste a minha pele
Somos muito mais bonitos por fora. As entranhas têm porcaria e cheiram mal se ficarem ao ar. A pele tapa tudo e protege. Esconde e deixa ver. A pele atrai.
morcego
No meu prédio, a média de idades, se me retirar das contas e aos vizinhos novos do rés-do-chão, é 90 anos de idade. Por isso, costumo encontrar alguém parado nas escadas com uma mão em cima do corrimão. São as pausas antes de mais três degraus. Não vivem ali crianças, cães, mas há um morcego e soube-o da forma mais improvável. Ouvi-o numa conversa na tasca do Jorge. Ele estava tão impressionado. O Jorge, um homem forte sem medo de malfeitores, estava com os olhos presos, nem pestanejava. Um morcego? Uma pessoa a quem chamam morcego. A neta da senhora Alice, falecida antes do Natal, ficou de arrumar as coisas da avó enquanto não se põe a casa à venda. E foi ficando. No outro dia, a vizinha Mariazinha foi lá pedir-lhe um ovo, fez-se convidada e entrou. Conta que o apartamento estava imundo. Amontoavam-se pacotes de comida na cozinha. Do que espreitou no quarto, a roupa estava organizada em montes. Parecia a casa de alguém que perdeu o tino. Telefonou à filha da Alice e ficou a saber de tudo. A sua sobrinha era estranha. Na família é conhecida como o morcego. Fala pouco, pinta os olhos de negro profundo, não convive com ninguém, à excepção do namorado, igualmente figura sinistra. "Ela não lava roupa, compra peças e mais peças, todas elas baratas". A Mariazinha viu um barata gigante a sair da cozinha e está preocupada com um ataque em massa. O prédio tem um morcego a viver no terceiro andar e eu nunca o vi subir as escadas.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
cão sem trela
Josefina sabia do quanto ele gostava dela. Durante o abraço, os seus joelhos falhavam. O que não percebia era a contradição. Não aparecia na hora combinada. Desmarcava. Estava sempre atarefado. Foi tolerante, tolerante, até um dia. Uma tarde atirou-lhe à cara as contradições e pôs um ponto final. Gostava muito dele, mas preferia estar com pessoas de quem gostava menos nesse Inverno. Não quer ter laços, dar conta da sua vida. Se for um cão sem dono, pode estar sem ladrar o tempo que lhe apetecer.
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