quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Homem excel
José adorava folhas de cálculo. Duas semanas depois de começarmos a ficar em casa um do outro, levou para o sofá a nossa primeira primeira página excel. Estava metade preenchida e metade por preencher. Ele precisava de saber o quanto achava eu ser o limite a poder pagar por um jantar. Meio a brincar, fui dando palpites. Aproveitei para olhar para a vida que fazia em números. Descobri que gastava muito em prendas, jantares, concertos, e que só poupava nos detergentes. Se são para lavar o chão, para que é preciso marcas gourmet? As tabelas por preencher eram um entretenimento. Estabelecia-se metas para custos a fazer com o fim de semana, com o feriado, o mês. No início, tinha a sua graça. Já tinha tido um namorado que passava horas a jogar "aos países", como lhe chamava, uma espécie de continuação da segunda guerra mundial, mas como novas fronteiras, regimes políticos inventados. O pouco que ele me explicava daquilo era impressionante. Não me podia contar muito por ser um jogo apenas partilhado com o irmão. Um segredo deles. Fui a sua primeira namorada a saber daquele outro planeta. Era uma prova de confiança. Nunca o contei a ninguém. Bem, entretanto o Zé começou a ficar paranóico com os valores das coisas e um dia não aguentei mais. Perguntei-lhe como seria a minha pessoa transformada numa folha de excel e ele, animado, disse-me que já me tinha traçado o perfil. De repente, veio o papel e estava ali reduzida a números. Tinha a minha altura, a minha cintura, a minha copa e costas, tamanho de pernas e braços e os meus seis dedos em cada um dos pés.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
esquece lá isso
Adoro esquecer,
gosto tanto de esquecer
como de lembrar,
e quase esqueci,
estava quase...
Sei que quando te esquecer,
vou festejar,
quero lembrar-me
do esquecimento
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
fora de prazo
Apagou o cigarro na mão e disse-lhe: "Estás a ver? Queima e passa". Ele tinha gostado muito, muito dela. Teve-a na cabeça meses a fio sem dizer palavra a ninguém. A declaração deu-se fora de prazo. Naquela fase, estava noutra dimensão. Dormia com uma namorada divertida e sexy. Andava com dores nos maxilares de tanto rir. Nada daquilo fazia agora sentido. O passado, passou, morreu. Gente que ressuscita nunca a entusiasmou. Traumas da catequese. A morte não tem amigos.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
mais vale um pássaro na perna
Vestia-se como uma senhora entre os 55 e 60 anos, com gosto médio. Nada chocava, nem o tamanho da saia. A meio do joelho. As cores eram sóbrias, e os cabelos médios deixavam ver o pescoço bem desenhado. Pintava o cabelo, claro, mas o novo tom não era ruivo nem castanho, luzia uma cor de chocolate forte. O que destoava era a tatuagem na perna esquerda. Um pequeno pássaro, ligeiramente abaixo do meio da perna. Amélia seguiu-a como fazem os detectives à antiga. E a senhora deixou de o ser, quando se abeirou dela e lhe perguntou: "Desculpe, posso roubar-lhe cinco minutos?". Fez um sorriso e desbloqueou-se a conversa. Contou-lhe ter ficado intrigada com o pássaro estampado ali tão à mão de ver, sendo ela tão discreta. A senhora chamava-se Clara. Clara olhava-a sem medo e quis saber o motivo de tal curiosidade. Amélia explicou-lhe que a saia e os sapatos não tinham que ver com a tatuagem. Clara contou-lhe a história, começando por dizer que morar na Almirante Reis também não tinha estado nas suas previsões. Embora a avenida estivesse a mudar, a impor-se na cidade. Resolveram sentar-se no indiano ali ao pé e pediram chá de jasmim. Clara contou-lhe da tatuagem feita em Nova Iorque. Passaram 20 anos, mais mês menos mês. Foi para lá viver com o Fred. Estavam apaixonados. Passeavam no Central Park. Falou-lhe de várias viagens que fez com ele. Ficando por dizer que era feito do Fred e o significado do pássaro. Desorientou-se a contar o seu passado. Recuava e avançava sem avisar. Por fim, soltou-se: "Um dia o Fred perdeu o emprego e deixou de falar".
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
avental
Transferiu tudo o que sentia pelo Pedro para o Amílcar e nem se apercebeu disso. Era craque em matemática, fazia doutoramento em inteligência artificial, mas não via o mais óbvio. Josefina já não gostava do Pedro e muito menos do Amílcar. Josefina gostava de gostar como gostou do Pedro e o Amílcar estava a jeito. Josefina andava enganada, e nem topava. Desvalorizava o que lhe desagradava do Amílcar e ia andando. Ele cozinhava bem.
és mesmo parva
Josefina tem o dom de ver como as pessoas são em dois minutos. Percebe se são sábias, preguiçosas, pouco espertas e enfadonhas. Tem o dom, mas não o usa. Usou-o em tempos, mas descobriu o quanto aquela percepção lhe complicava o dia-a-dia. Bloqueou-a. Mesmo quando está descontraída e esta funciona automaticamente, procura empurrá-la para o submundo dos pensamentos a evitar. Por isso se faz de parva.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
raio do nariz
Ele tinha um defeito. Tinha sido namorado de uma amiga minha. Não era bem namorado. Tinha sido um caso breve. Coisa do passado, mas preferia não ter sabido. Não ter sabido dos pormenores. Maldita hora em que ela me contou. Estava arrumado, é certo. Nem os conseguia imaginar juntos. Ele é largo e ela quadrada, não encaixariam os braços. Ai, essa mania de imaginar tudo e mais alguma coisa! De resto, a sua companhia prometia horas sem seca. Subia sempre as escadas de casa a correr. Percebi o quanto me estava a agradar quando o nariz me denunciou. Mais uma vez, o nariz. Sempre ele. Pode ser Verão ou Inverno, não interessa. De repente, fica gelado. Ai que há aqui qualquer coisa, o que é que eu faço? Não faço nada. Levo lenços de papel na mala.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Fica com ela
Ele gosta tanto do cheiro dela que lhe roubou o casaco. Ontem, agarrou-se a ele como se lhe desse um abraço. Faltava tudo, a estrutura fininha e firme dela, mas estava lá qualquer coisa. Estava obcecado com a ideia de voltar a tê-la nos braços. Pensava nisso antes de adormecer. De manhã, só pensava no pequeno almoço. Mas depois do café, pensava no casaco, e se este não lhe faria falta. Ligou-lhe: "Ficou o teu casaco no meu carro, queres que o leve logo?". Lacónica, ela disse: "Ok". Nada mais. Quando ele lhe entregou a casaco, ela vestiu-o de imediato e ele aproximou-se. "Fica-te bem!". "Sabes", disse ela, "não é meu, é da Rita, ela esqueceu-se dele cá em casa e agradou-me tanto o perfume, que não o devolvi".
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