sábado, 29 de junho de 2013

Poesia quotidiana

de que serve a poesia enfeitada
de que serve gente postiça
caem as unhas de gel
e
a descoberto fica a mancha do fungo
de que serve não falar das ninharias
se são elas a inquietação
de que serve um prato de ostras
se o apetite pede uma banana dentro do pão
de que serve a poesia enfeitada
se a vida é sóbria que nem as manhãs

sexta-feira, 7 de junho de 2013

vinho

Não é o melhor poema dele. O melhor também não interessa. A competição é uma treta. As melhores pessoas de tão boas ficam escondidas pela bondade. Disse-lhes para serem menos generosas. Não perceberam onde queria chegar. Continuaram excelentes. E desisti de querer fazer delas o que não são. Atirei razão, devolveram um jantar à larga. Cada prato mais delicioso do que o anterior. Vinho de 100 euros. Tinha sido oferecido. O nome não o fixei. Esqueci-me de perguntar pelo filho ausente. Emigrou.

às escuras

A dor não tem luz. Fecho os olhos. Pões a mão sobre a minha cabeça. Não consigo abrir as pálpebras, apesar do sol queimar a pele e de me pressionares falando das andorinhas. Voam sobre a piscina, vem  uma e outra atrás, imitam-se, fazem tangentes finas à linha de água. Vão bebericar.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

falta

Felismina gostava tanto de aprender. Era uma paixão. Iluminava-se. Depois, na adolescência, começou a compreender, a compreender até ao tutano e não poder mais e aí transformou a paixão em amor de noiva. De tanto querer compreender os outros, para não os julgar e os justificar, esqueceu-se de si e eles esqueceram-se dela também. Ficou invisível, estando visível, sentia-se pouco em toda a parte e toda a parte sentia falta dela.

hirudoid

tinhas uma árvore dentro de casa e um piano no meio do jardim. desconfiei logo. ajudei a deslocar as peças até aos sítios devidos. Disseste que foi isso que mudou a tua vida. eu, eu ganhei as tuas piadas.

vai ou fica

vai
vai, vai
vai, vai, vai,
vai, vai, vai, vai, vai, vai, fica

fica? fico?

vai ou fica?
vai,
vai, vai
vai, vai, vai

fico?
fica



segunda-feira, 27 de maio de 2013

tema original

tive um sonho com banda sonora. um dos temas era bom. dos outros, não me lembro. quis gravá-lo e quase consegui. tinha refrão. era animado. peguei no gravador para o cantarolar. tinha-o na mão e a ele na cabeça, bastava deita-lo fora. mas não saiu. eu tive um sonho com banda sonora.

deboulés

Não estragues uma tranquilidade que tanto demorou a fazer parte.

quieta

matou a culpa, mas ela ressuscitou. Não foi na Páscoa, foi no Corpo de Deus. Voltou a sacudi-la e ela sucumbiu. Desistiu diante de tanto pó. Parece. Está quieta.

iphónicos

Caminhavam pelos passeios, conversando a bom ritmo, de forma encadeada. Não haveria guião de filme mais perfeito a esse nível. Falas vivas, períodos pouco extensos. A vizinha, o pão, o Herberto Helder, as férias no campo, a queda do precipício, a viagem a Israel, ligaram-se espontaneamente. As declarações de amor ficam sempre para depois. Escrevem-nas via iphone. Ao vivo, não se fala delas, não vá o éter desviar-lhes o sentido.