terça-feira, 19 de novembro de 2013

88

Os meus pais fizeram anos de casados. Passaram 44 anos, mas a minha mãe diz que comemoraram 88. Trabalham debaixo do mesmo teto e passam quase 24 horas juntos, por isso conta a dobrar.

1, 2 e 3

querido pai natal, traz me uma varinha mágica para poder passar a sopa. se funcionar bem, aproveito e peço três desejos.

banheira

agasalha-se mal porque gosta de sentir o frio. depois, queixa-se dele. depois, sente-se frágil. depois, vai para casa enfiar-se na banheira. depois, encolhe-se nos lençóis enquanto ele não chega.

bengala

Queria conversa, a vizinha. Percebi depois. Falou na bengala novinha. Até é gira, disse, como se uma bengala não pudesse ser dotada de beleza. Não a imaginaria a passear de bengala feia na mão. Não me abre a porta de casa antes de se retocar. Sombra azul muito clara, sempre, que lhe evidencia a cor dos olhos. Acelerei a despedida. Tinha 15 minutos para chegar ao INE. Ia de bicicleta. Fiz o caminho a pensar em como seria a bengala.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

a tua voz

Entra-me pelos ouvidos
como se fosse música
de instrumento acústico,
cortada por um ligeiro grão
num dos tons mais graves
mal sobes meio tom
entre a terceira e a quarta
outro som me embala
ligeiramente seco,
estaladiço
se pudesse,
fazia um disco
com ela,
meu top 10

braços

Iam sozinhos em, círculo, girando até à cozinha
sem corpo, portanto
Esse ficou a alongar os músculos
das pernas, até ao maior milímetro possível
os braços, deixou-os ir
voltam sempre

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

efeito

um dos segredos mais bem guardados tem a ver com o deserto e seus efeitos após regresso. o alto mar não conseguiu semelhante proeza. As montanhas idem aspas. Os rios são meninos adolescentes, de borbulhas a abrir e energia a despontar em bruto. depois da fúria das tempestades, só o teu amor.

sonho de uma noite de outono

Soprava vento lá fora
estavam frescos os lençóis
e o teclado do computador
ponta dos dedos
vinha com o dia inteiro
dentro de mim
para deitar fora
despejar
não saía pela boca
nem pelas narinas
essas, entupidas
vedavam
a passagem
sabia que precisava
de fazer do dia tóxico
um passado
para poder dar ao sono
um presente

terça-feira, 8 de outubro de 2013

sem querer

debatia-se por qualquer coisa todos os dias. quando não havia contas por pagar, arranjava uma suspeita minimamente infundada para explorar. de lupa na carteira, e caneta bic laranja na mão, deu-se ao trabalho, daquela vez, de perceber a mudança da vizinha. num mês, 20 quilos. Estava outra pessoa, em todos os aspectos. magra que nem uma vassoura. uma esfregona, tendo em conta o cabelo de pêlo grosso. perguntar seria indelicado. podia ter perdido alguém importante. podia ter descoberto que tinha cancro. podia ter morto o cão.

os três estados

À medida que ia andando, e fazia quilómetros, deixava para trás conclusões sólidas. Chegado ali, que morram. Matava-as, na sua cabeça, desferindo uma paulada certeira, imitando a padeira de Aljubarrota. Xantipa, mulher de Sócrates, também padeira, era outra inspiração. Tau. Desfaziam-se. O amor nunca chega ao estado sólido.