terça-feira, 19 de novembro de 2013

bengala

Queria conversa, a vizinha. Percebi depois. Falou na bengala novinha. Até é gira, disse, como se uma bengala não pudesse ser dotada de beleza. Não a imaginaria a passear de bengala feia na mão. Não me abre a porta de casa antes de se retocar. Sombra azul muito clara, sempre, que lhe evidencia a cor dos olhos. Acelerei a despedida. Tinha 15 minutos para chegar ao INE. Ia de bicicleta. Fiz o caminho a pensar em como seria a bengala.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

a tua voz

Entra-me pelos ouvidos
como se fosse música
de instrumento acústico,
cortada por um ligeiro grão
num dos tons mais graves
mal sobes meio tom
entre a terceira e a quarta
outro som me embala
ligeiramente seco,
estaladiço
se pudesse,
fazia um disco
com ela,
meu top 10

braços

Iam sozinhos em, círculo, girando até à cozinha
sem corpo, portanto
Esse ficou a alongar os músculos
das pernas, até ao maior milímetro possível
os braços, deixou-os ir
voltam sempre

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

efeito

um dos segredos mais bem guardados tem a ver com o deserto e seus efeitos após regresso. o alto mar não conseguiu semelhante proeza. As montanhas idem aspas. Os rios são meninos adolescentes, de borbulhas a abrir e energia a despontar em bruto. depois da fúria das tempestades, só o teu amor.

sonho de uma noite de outono

Soprava vento lá fora
estavam frescos os lençóis
e o teclado do computador
ponta dos dedos
vinha com o dia inteiro
dentro de mim
para deitar fora
despejar
não saía pela boca
nem pelas narinas
essas, entupidas
vedavam
a passagem
sabia que precisava
de fazer do dia tóxico
um passado
para poder dar ao sono
um presente

terça-feira, 8 de outubro de 2013

sem querer

debatia-se por qualquer coisa todos os dias. quando não havia contas por pagar, arranjava uma suspeita minimamente infundada para explorar. de lupa na carteira, e caneta bic laranja na mão, deu-se ao trabalho, daquela vez, de perceber a mudança da vizinha. num mês, 20 quilos. Estava outra pessoa, em todos os aspectos. magra que nem uma vassoura. uma esfregona, tendo em conta o cabelo de pêlo grosso. perguntar seria indelicado. podia ter perdido alguém importante. podia ter descoberto que tinha cancro. podia ter morto o cão.

os três estados

À medida que ia andando, e fazia quilómetros, deixava para trás conclusões sólidas. Chegado ali, que morram. Matava-as, na sua cabeça, desferindo uma paulada certeira, imitando a padeira de Aljubarrota. Xantipa, mulher de Sócrates, também padeira, era outra inspiração. Tau. Desfaziam-se. O amor nunca chega ao estado sólido.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

mapa

desenhaste um mapa tão pequenino. mundo de escassas portas e fronteiras. nos meus países falam-se línguas variadas mas toda a gente se entende. as palavras são mais um meio. os olhares estão primeiro.

dança

disseste-me para ver como uma horta e aí percebi tudo. Tinha vegetais, legumes, de todas as cores e feitios, alguns verdes, verdes, de tão bonitos nem apeteciam arrancar para comer. de lado, plantas, muitas. altas e de folha fina e depois outras de caules e folhas expressivas, como se estivessem num bailado. que abertura de braços e mãos. Linhas quase perfeitas. Não havia flores. as flores morrem depressa.

antes e depois

antes de falares, estavas bloqueado. Nem te mexias. A expressão do rosto fechada. Tinhas um poço dentro da tua cabeça. e não tinhas forças para trepar as paredes, velhas e gastas, escorregadias e perigosas. a imobilidade. O medo apoderou-se de ti e não eras humano. Tinhas ficado um animal. Apenas não tinhas conseguido ser feroz.