Soprava vento lá fora
estavam frescos os lençóis
e o teclado do computador
ponta dos dedos
vinha com o dia inteiro
dentro de mim
para deitar fora
despejar
não saía pela boca
nem pelas narinas
essas, entupidas
vedavam
a passagem
sabia que precisava
de fazer do dia tóxico
um passado
para poder dar ao sono
um presente
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
terça-feira, 8 de outubro de 2013
sem querer
debatia-se por qualquer coisa todos os dias. quando não havia contas por pagar, arranjava uma suspeita minimamente infundada para explorar. de lupa na carteira, e caneta bic laranja na mão, deu-se ao trabalho, daquela vez, de perceber a mudança da vizinha. num mês, 20 quilos. Estava outra pessoa, em todos os aspectos. magra que nem uma vassoura. uma esfregona, tendo em conta o cabelo de pêlo grosso. perguntar seria indelicado. podia ter perdido alguém importante. podia ter descoberto que tinha cancro. podia ter morto o cão.
os três estados
À medida que ia andando, e fazia quilómetros, deixava para trás conclusões sólidas. Chegado ali, que morram. Matava-as, na sua cabeça, desferindo uma paulada certeira, imitando a padeira de Aljubarrota. Xantipa, mulher de Sócrates, também padeira, era outra inspiração. Tau. Desfaziam-se. O amor nunca chega ao estado sólido.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
mapa
desenhaste um mapa tão pequenino. mundo de escassas portas e fronteiras. nos meus países falam-se línguas variadas mas toda a gente se entende. as palavras são mais um meio. os olhares estão primeiro.
dança
disseste-me para ver como uma horta e aí percebi tudo. Tinha vegetais, legumes, de todas as cores e feitios, alguns verdes, verdes, de tão bonitos nem apeteciam arrancar para comer. de lado, plantas, muitas. altas e de folha fina e depois outras de caules e folhas expressivas, como se estivessem num bailado. que abertura de braços e mãos. Linhas quase perfeitas. Não havia flores. as flores morrem depressa.
antes e depois
antes de falares, estavas bloqueado. Nem te mexias. A expressão do rosto fechada. Tinhas um poço dentro da tua cabeça. e não tinhas forças para trepar as paredes, velhas e gastas, escorregadias e perigosas. a imobilidade. O medo apoderou-se de ti e não eras humano. Tinhas ficado um animal. Apenas não tinhas conseguido ser feroz.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
força
rasguei-lhe a camisola intencionalmente. ele não gostava dela mas continuava a usá-la sempre que a restante roupa estava suja, já no interior da máquina de lavar. ele agradeceu. faltava-lhe coragem para cortar com o passado. tinha de ser à força, empurrado por outrém. E já estava.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
um dia
tinha sido educada para não dizer o que pensava. dizia, com delicadeza, o que não feriria os outros. ou então dava a volta e criava um texto ao lado do que pensava, para não o dizer directamente, dizendo-o. Na sua cabeça, um só pensamento encaixava em vários níveis de expressões verbais. Já para não falar da parte física. Sempre disse coisas com o corpo, a sua tradução mais transparente, como se o todo nunca se conseguisse libertar da parte. Posto isto, o desgaste, o acumular de frases sobre o mesmo, de linhas e escadas sobre o chão de terra dura. Uma canseira. Até que um dia.
domingo, 15 de setembro de 2013
limites
dobrou o papel até ao fim das possibilidades. ficou pequeno, mínimo. depois, fez exactamente o contrário. cresceu, esticou-o. puxou-o com a ponta dos dedos. espalmou-o para lhe tirar o amarrotado. era uma folha A5. tinha sido um rectângulo de dois centímetros. era capaz de mais. tinha ficado com as mãos.
tesourada
- espero que sejam mais felizes do que parecem. Que entre quatro paredes falem olhando-se olho no olho e se vejam nus como se fossem abençoados pela natureza.
- serão igualmente tristes?
- é provável.
- Estão separados estando juntos.
- serão igualmente tristes?
- é provável.
- Estão separados estando juntos.
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