terça-feira, 9 de julho de 2013

deitada

resulta outra coisa pensar deitada. Por isso, Rembrandt dormia sentado. Não só por isso. Era costume na época. Acreditava-se que a ida do sangue para a cabeça daria morte certa. os pensamentos deitados são menos firmes, voam. Os mesmos de cabeça erguida impõem-se ao lado de muita cautela. efeito dos pés na terra. ou da terra nos pés.

domingo, 7 de julho de 2013

sentada

enquanto olhava para ele, nasciam versos na minha cabeça. ele não os ouvia. eu não os dizia. tinha vergonha de os deitar cá para fora. Parecia a Ofélia a escrever cartas ao Pessoa. eram primários. estava encantada e deixava-me estar, sentada naquele banco de madeira.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

ponteiro

pedir um minuto de atenção. conversa séria ao minuto. nos intervalos. intervalos valiosos. sérios.

estafeta

chorar pelo que devia ter dito e não disse na altura certa. ficou por dizer. a quem o dizer? quantos pensamentos carregamos no camião?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

rio

seguia esverdeado, escorregadio
terá sido sempre assim
aquele rio
simplesmente não estava lá
como naquela noite em que não estive lá
e naquela tarde em que não fui
naquele domingo em que fui preguiçosa
bloqueei estupidamente até segunda-feira
seguia de água límpida
ao gosto das rãs
ao gosto das algas finas
das lagartixas
dos sapos, não sabemos
foram para o baile
não sabem estar sozinhos

bem comportada

derreto-me. sinto um pouco isso nas pontas das mãos e dos pés. se me desfizer um dia destes, transforma-me num chocolate, se faz favor.

madeira

Caiu, bateu com a cabeça na cómoda e morreu. Num segundo, contava. Sem tempo para revisitar o passado, felizmente. Tem Alzheimer e sonha um dia bater com a cabeça num móvel qualquer. Joaquim foi esquisito a vida toda. Gostou de amarelo quando era fatela vestir essa cor. No momento de ir embora, qualquer madeira serviria. Sabes que não vai ser assim, disse. Também não sabes como vai ser, nunca sabes como vai ser a seguir, amanhã, e depois de amanhã, e antes do fim de semana, dizia-me, cheio de vida.

sábado, 29 de junho de 2013

Poesia quotidiana

de que serve a poesia enfeitada
de que serve gente postiça
caem as unhas de gel
e
a descoberto fica a mancha do fungo
de que serve não falar das ninharias
se são elas a inquietação
de que serve um prato de ostras
se o apetite pede uma banana dentro do pão
de que serve a poesia enfeitada
se a vida é sóbria que nem as manhãs

sexta-feira, 7 de junho de 2013

vinho

Não é o melhor poema dele. O melhor também não interessa. A competição é uma treta. As melhores pessoas de tão boas ficam escondidas pela bondade. Disse-lhes para serem menos generosas. Não perceberam onde queria chegar. Continuaram excelentes. E desisti de querer fazer delas o que não são. Atirei razão, devolveram um jantar à larga. Cada prato mais delicioso do que o anterior. Vinho de 100 euros. Tinha sido oferecido. O nome não o fixei. Esqueci-me de perguntar pelo filho ausente. Emigrou.

às escuras

A dor não tem luz. Fecho os olhos. Pões a mão sobre a minha cabeça. Não consigo abrir as pálpebras, apesar do sol queimar a pele e de me pressionares falando das andorinhas. Voam sobre a piscina, vem  uma e outra atrás, imitam-se, fazem tangentes finas à linha de água. Vão bebericar.