- Escreveste-me pela primeira vez um email além do subject.
- não tinha reparado nisso. desculpa.
- foi preciso mandar-te um poema.
- pois foi.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
ego grande, ego pequeno
Quando alguém de ego grande encontra alguém de ego pequeno é uma desgraça. Um engole o outro. Se alguém de ego médio encontra alguém de ego médio, entediam-se. Um ego grande nunca se interessa por um ego maior do que o seu. Um ego pequeno está sempre com medo de se deixar levar por um ego mínimo. Na luta de egos, aconselha-se discussão. Quanto mais viva for, mais perto ficam um do outro.
braços
Josefina tem fixação por braços. Uns braços bonitos são uma ponte. E atravessar pontes sempre foi a melhor parte das viagens longas de carro que fazia em família. Avisavam-na: "Vem lá uma ponte". Preparava-se para o momento. Abria até meio a janela do automóvel, inclinava a cabeça para a direita e deixava-se ficar. Foi assim enquanto vivia com os pais. Depois, depois, cresceu e substituiu as pontes por braços.
invisível
Chega a casa, abre a janela. Substitui os cigarros por um copo de vinho. Pega no copo. A música começa a tocar. Um embalo calmo. Simone abana-se e fecha os olhos. Viaja até ao pequeno almoço do outro dia. Esplanada da Senhora do Monte, na Graça. Estava frio, o nariz congelou e pingou. Ele falou sem parar. 80% contra 20%. Passou o tempo a limpar o nariz. Ouviu, ouviu. Simone esteve mais uma vez invisível. Só não é invisível quando chega a casa.
perfeitos
-Tem amores perfeitos?
- só amarelos.
- Hum, dessa cor não gosto.
de outra vez, nova florista.
- Tem amores perfeitos?
- estão esgotados, menina.
- desde quando?
- setembro. agora não se vendem.
- posso fazer uma encomenda?
- claro, passe na próxima semana.
na quinta-feira seguinte.
- já chegaram os amores perfeitos?
- vieram, têm duas cores.
-oh, deixe-me ver.
- então?
- de duas cores, nem pensar.
30 dias depois
- a da bicicleta não ficou de ir buscar os amores perfeitos?
(esqueci-me dos amores perfeitos na Almirante Reis)
- só amarelos.
- Hum, dessa cor não gosto.
de outra vez, nova florista.
- Tem amores perfeitos?
- estão esgotados, menina.
- desde quando?
- setembro. agora não se vendem.
- posso fazer uma encomenda?
- claro, passe na próxima semana.
na quinta-feira seguinte.
- já chegaram os amores perfeitos?
- vieram, têm duas cores.
-oh, deixe-me ver.
- então?
- de duas cores, nem pensar.
30 dias depois
- a da bicicleta não ficou de ir buscar os amores perfeitos?
(esqueci-me dos amores perfeitos na Almirante Reis)
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
panelas e colheres
Para contrariar as dúvidas férteis, deu-lhe poesia. Da simples, básica. Nada de palavras difíceis para enfeitar as ideias. Baseada no elementar. Na lua, no vento e na claridade. Não resultou. Levou então as dúvidas a dar uma volta. Pegou na bicicleta e pedalou, pedalou, pedalou. Quando parou, ao pé do Tejo, percebeu. As dúvidas desfazem-se na cozinha, cozinhando.
deitar fora
Josefina tinha o vício de procurar a verdade. Era um vício velho. Até o escondia por vergonha. Vestia roupas alternativas e usava sabonetes de mel para disfarçar. Recusava o tema nas conversas de amigos. Entretanto, há uns anos descobriu novo epílogo para o processo. Quando descobria a verdade, deitava-a fora.
mais ou menos
- Está tudo mais ou menos?
- Menos hoje.
- Então?
- já que perguntaste.
- ontem foi de mais?
- hoje vai ser de menos.
- Menos hoje.
- Então?
- já que perguntaste.
- ontem foi de mais?
- hoje vai ser de menos.
fita métrica
Fomos medir a solidão. Josefina, casada, Dulce, divorciada, José, amante, Afonso, solteiro, Jorge, acompanhado. Tinha muitos centímetros. Descuidaram-se. Deixaram de falar na infância e nos medos pequeninos. Deixaram de falar sobre a solidão.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
quadrado
A adoração por triângulos começou na adolescência. Há sempre três lados na versão de uma história. Três dimensões. Há sempre três pessoas numa relação. Uma ex-namorada, uma ex-mulher, uma mãe, um pai, uma amiga, um amigo confidente, dependente ou simplesmente uma das pessoas conta a dobrar. Quatro pessoas são demais.
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