- as plantas morreram?
- não me parece que estejam a dormir.
- secaram.
- morreram.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Júpiter
Dois pesos. Ela leve que nem uma pena fina, fina. Ele pesado, chumbo compacto. Assim se encontraram. Se o encontro tivesse sido noutro dia, depois de ele ter tido um sono descansado, o resto da história teria tido outro rumo. mas não foi. Ele estava ansioso e não via a hora de chegar a casa, de se atirar para o sofá. estava dominado por uma inquietação em crescendo, efeito de um acumular de equívocos. um pontapé, atrás de outro pontapé. Estavam difíceis aqueles tempos no trabalho. Ele, desconcentrado. Ela, a pairar. Acabadinha de chegar de férias, Maria respirava devagar e os olhos pouco pestanejavam. a voz, meiga, um pouco arrastada. Resultado: ela percebeu o quanto stressado ele consegue ser. Ele concluiu: habitavam planetas diferentes.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
sesta
dormir à tarde faz de um dia dois.
por isso sou mais velho do que pareço,
por isso tanta tolerância,
por isso tanta compaixão.
Quem dorme pouco,
pode saber muito,
coleccionar sucessos,
mas é muito novo,
num corpo de velho.
por isso sou mais velho do que pareço,
por isso tanta tolerância,
por isso tanta compaixão.
Quem dorme pouco,
pode saber muito,
coleccionar sucessos,
mas é muito novo,
num corpo de velho.
intrigas
Na empresa da Josefina ninguém se conhece em carne e osso. Comunicam online, via skype. Há reuniões como em qualquer outra instituição, demasiadas reuniões. Emails que terminam em reticências, fazendo adivinhar um desfecho irónico. Enfim, dois meses bastaram para começarem a emergir intrigas. Josefina recebe emails oficiais do chefe e emails escritos entre parêntesis. Conversa através do gtalk com o Rui, e este manda-lhe presentes noite dentro: um poema ou uma fotografia tirada algures durante as viagens do passado. Josefina foi das primeiras a saber: Dulce vai ser despedida. O motivo? Diferenças inconciliáveis com os seus superiores. Dulce não respondia na hora aos emails. Não estava sempre online. Francisco, seu chefe directo, foi interpretando os atrasos com desconfiança.
a fotografia
O Jorge vive num quarto no Martim Moniz, um quarto com vista e uma pequena varanda, muito arejado, disse mais do que uma vez. Há décadas trabalhou ao pé da Avenida de Paris, foi o local onde trabalhou mais tempo e habituou-se às ruas e aos passeios largos. Os que são da sua geração conhece-os bem. Hoje é pedinte na mesma rua. Escolheu a entrada de um prédio próximo ao pingo doce e ali fica, cumprindo horário, como se trabalhasse no escritório do senhor Rosário, ainda fosse o estafeta de serviço. O dinheiro da pensão dá-lhe para pagar o quarto e comer uma sopa. O que lhe dão os amigos é para os extras, uma bifana, um pastel de bacalhau. É invejado pelos sem abrigo da zona. Fala com quem passa e recebe apertos de mão, além de moedas. Jorge tem família. Uma irmã, em Inglaterra, que não vê há 40 anos. Foi e não voltou. Este verão recebeu uma carta dela. Dizia-lhe que o vinha visitar e que ia trazer o sobrinho, acabado de formar. "Tenho um sobrinho médico", disse, com orgulho, enquanto encostava a mão ao peito. Jorge tem uns belos olhos azuis e apresenta-se aprumadinho. Quando ele desapareceu há um mês, a sua ausência notou-se. Esteve internado, no Santa Maria."Foram muito atenciosos comigo". A irmã, afinal, não veio. "Ela queria vir amparar-me, mas não pôde vir", disse. "Mandou-me uma fotografia".
gramática
As ideias atropelam-se umas às outras,
as palavras encavalitam-se e saem fora do sítio.
estarei cansada?
o cérebro pede folga e poesia,
versos soltos, intuições pouco sólidas, vagas.
Dou-lhe tudo o que me pede.
Devolve-me a minha vida.
as palavras encavalitam-se e saem fora do sítio.
estarei cansada?
o cérebro pede folga e poesia,
versos soltos, intuições pouco sólidas, vagas.
Dou-lhe tudo o que me pede.
Devolve-me a minha vida.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
manif
o que sobressai de uma grande manifestação é a condição humana. somos todos iguais dentro da casa de banho e diante da injustiça. quem aprecia famosos, não percebe nada de manifestações.
gato ou cão
- Tia, quando se sabe se se gosta de alguém?
- hum, aí há gato. Conta lá.
- Não há gato, há cão.
- Ahahah.
- Começa por se pensar nessa pessoa.
- A toda a hora?
- No início, não. Vai aumentando de frequência.
- Só à noite, no começo, é isso?
- De noite, há menos ruídos e distracções, por isso a nossa cabeça se reserva a outro tipo de pensamentos. Diria que a poesia tem mais a ver com noites e manhãs.
- Ainda não percebi bem o que é a poesia.
- Leva o seu tempo.
- hum, aí há gato. Conta lá.
- Não há gato, há cão.
- Ahahah.
- Começa por se pensar nessa pessoa.
- A toda a hora?
- No início, não. Vai aumentando de frequência.
- Só à noite, no começo, é isso?
- De noite, há menos ruídos e distracções, por isso a nossa cabeça se reserva a outro tipo de pensamentos. Diria que a poesia tem mais a ver com noites e manhãs.
- Ainda não percebi bem o que é a poesia.
- Leva o seu tempo.
Malditos
Jurar, jurar. Quem mais jura, mais mente, quem enaltece em exagero um aspecto, procura esconder algo se não dizer exactamente o contrário. As palavras traem as ideias em estado puras. Coitadas. Por elas, não seria assim. Fazem-lhes mau uso e lá estão elas a enganar toda a gente. Malditos.
apagador
A dor física é do pior que há. Tira a racionalidade a um filósofo. Perde-se a vista. Engole qualquer preocupação. Bem, por esse lado sobra uma parte boa. Vá lá. Depois da facada, vem a cicatriz, depois da cicatriz, a história para contar. Algumas apagam-se completamente, outras deixam rasto.
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