quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Silêncio

José passou um mês, algures na Índia. Não sabia ao que ia. E encontrou um retiro espiritual destinado aos que querem limpar a mente. Durante 30 dias propôs-se conviver com 55 pessoas, abdicando do uso das palavras. Ali eram proibidas. Não podia falar. Apenas conhecia a Maria, a sua melhor amiga, que com ele aceitou a aventura de ir sem destino certo até onde fosse e lhes apetecesse e o dinheiro deixasse. Em dois dias, fez quatro, cinco amigos. A aproximação baseou-se nos olhares meigos e nas escolha do local para fazer as refeições. Dirigiam-se sempre para o mesmo canto. A meio do mês tinha-se habituado. Começou a ser natural escutar o estômago em funções. Passou a ouvir em bom som o que acontecia no interior do seu organismo. E os grupos foram-se solidificando. A dez dias do fim, Maria começou por se encostar ao ombro do Chris na altura da sobremesa. Ficavam colados e quietos. A seis dias do fim, faziam-no nas pausas dos passeios a pé. A três dias do fim, nos intervalos da exibição dos filmes. Mudos, claro. No último dia, abraçaram-se e despediram-se.






Cinco anos

- olá. parabéns!
- olá, olá. Parabéns?
- faz hoje cinco anos que acabámos.
- Só tu, como te foste lembrar disso.
- agora, a esta distância, foi bom ter acontecido, já viste?
- sei lá se foi bom, aconteceu. Fez sentido naquela altura. mas não te dou parabéns. que parvoíce.
- estás a chamar-me parva?
- estou
- ainda bem que acabámos.
- ainda bem que és parva
(caiu a ligação)
- caiu a chamada. Não és nada parva. eu é que sou parvo.
- somos dois parvos.
- vou desligar, ok?
- não consigo ser eu a desligar, já sabes.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

bilhete de avião

Josefina tirou férias do passado.

domingo, 1 de julho de 2012

azul açoriano

Passava o chuveiro em movimentos circulares por cima do coração. Uma e outra vez. Estava no banho e o ar embaciado. De repente, nasceu-lhe a imagem de um umbigo, um umbigo bem desenhado, pronto a crescer. À medida que foi alargando, alargando, começou a brotar água das profundezas e em pouco tempo formou-se um lago. Um lago tranquilo de azul açoriano. Foi então que deu por si a procurar o barco de papel que tinha dobrado na pastelaria Tifani, dois dias antes. Foi fácil encontrá-lo. Estava onde o tinha posto. Na primeira gaveta do armário. Pegou nele e, com a delicadeza mais fina que imaginou, colocou-o na água. Simples. Primeiro, houve equilíbrio. Depois veio o naufrágio. Pelo meio, um lago descontrolado, uma banheira oceano.

domingo, 27 de maio de 2012

cerejas

Come chocolates como quem come cerejas

quarta-feira, 18 de abril de 2012

o melhor pedaço

Felismina sempre deixou o melhor pedaço da lasanha para o fim. Aplicava a regra à sua vida. A melhor parte, fica para depois. Por vezes, tão depois, que nunca mais vinha. E se vinha, apressava-se a empurrá-la energicamente para a frente. Um dia, porém, o empurrão correu mal e deu por si a engolir a melhor garfada de lasanha, a que está próxima da borda, ligeiramente tostada. Ficou com a boca cheia. Enquanto a mastigava, os olhos abriram-se ao máximo do seu tamanho. Desfez-se na boca. Quando acabou, perguntou: é só isto?

sismo 2012

O encanto das lojas tradicionais seduz-me. Têm vida. Cheiro com identidade. Encontro marcas de um passado que não foi o meu, mas que sei que foi de todos. As lojas tradicionais são sobreviventes. Quando entro numa, sinto-me um sobrevivente, só não sei muito bem de que catástrofe.

noiva

Não gosto de protagonismo. Se casasse, nunca seria a noiva.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

tim tim por tim tim

José sentou-se e ficou ali de boca fechada. Ela queda ficou. José pediu um chá verde, pouco quente, e uma torrada com manteiga. E disse-lhe que não sabia como começar. Tinha uma coisa para lhe contar, mas não tinha descoberto o melhor início. Sentia um nó na garganta. Ela propôs-lhe uma ordem contrária: do fim para o princípio. José tentou. Fixava-a nos olhos e desistia. Não conseguia. Maria perguntou-lhe se ele estava decidido. Ele respondeu-lhe que não sabia, só tinha uma certeza, sem falar com ela não podia ficar. Passaram 15 minutos e nada. Maria tocou-lhe na mão e despediu-se. Não se pode esperar infinitamente pelas as palavras dos outros. Saiu dali convencida de que não havia nada a fazer. Andou em passo largo até casa, ultrapassou um jovem de calças descaídas com a roupa interior à vista. Ainda identificou os desenhos de umas gotas de água cinzentas. "Lágrimas?", passou-lhe pela cabeça. "Chuva ou lágrimas?". Quando chegou a casa, abriu o frigorífico, retirou um um iogurte liquido, fechou bem a porta e ligou o computador. Lá estava: um mail dele a contar tudo, tim, tim por tim, tim. Com os pormenores que ela jamais perguntaria. Escrevemos tanta coisa que não falamos. Falamos tanta coisa que nunca escreveríamos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

coisas que se estragam

Só se estraga o que era bom
e se era bom, funcionava
e se funcionava, era útil
e se era útil, faz falta
e o que falta é o que nos move.