domingo, 1 de julho de 2012

azul açoriano

Passava o chuveiro em movimentos circulares por cima do coração. Uma e outra vez. Estava no banho e o ar embaciado. De repente, nasceu-lhe a imagem de um umbigo, um umbigo bem desenhado, pronto a crescer. À medida que foi alargando, alargando, começou a brotar água das profundezas e em pouco tempo formou-se um lago. Um lago tranquilo de azul açoriano. Foi então que deu por si a procurar o barco de papel que tinha dobrado na pastelaria Tifani, dois dias antes. Foi fácil encontrá-lo. Estava onde o tinha posto. Na primeira gaveta do armário. Pegou nele e, com a delicadeza mais fina que imaginou, colocou-o na água. Simples. Primeiro, houve equilíbrio. Depois veio o naufrágio. Pelo meio, um lago descontrolado, uma banheira oceano.

domingo, 27 de maio de 2012

cerejas

Come chocolates como quem come cerejas

quarta-feira, 18 de abril de 2012

o melhor pedaço

Felismina sempre deixou o melhor pedaço da lasanha para o fim. Aplicava a regra à sua vida. A melhor parte, fica para depois. Por vezes, tão depois, que nunca mais vinha. E se vinha, apressava-se a empurrá-la energicamente para a frente. Um dia, porém, o empurrão correu mal e deu por si a engolir a melhor garfada de lasanha, a que está próxima da borda, ligeiramente tostada. Ficou com a boca cheia. Enquanto a mastigava, os olhos abriram-se ao máximo do seu tamanho. Desfez-se na boca. Quando acabou, perguntou: é só isto?

sismo 2012

O encanto das lojas tradicionais seduz-me. Têm vida. Cheiro com identidade. Encontro marcas de um passado que não foi o meu, mas que sei que foi de todos. As lojas tradicionais são sobreviventes. Quando entro numa, sinto-me um sobrevivente, só não sei muito bem de que catástrofe.

noiva

Não gosto de protagonismo. Se casasse, nunca seria a noiva.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

tim tim por tim tim

José sentou-se e ficou ali de boca fechada. Ela queda ficou. José pediu um chá verde, pouco quente, e uma torrada com manteiga. E disse-lhe que não sabia como começar. Tinha uma coisa para lhe contar, mas não tinha descoberto o melhor início. Sentia um nó na garganta. Ela propôs-lhe uma ordem contrária: do fim para o princípio. José tentou. Fixava-a nos olhos e desistia. Não conseguia. Maria perguntou-lhe se ele estava decidido. Ele respondeu-lhe que não sabia, só tinha uma certeza, sem falar com ela não podia ficar. Passaram 15 minutos e nada. Maria tocou-lhe na mão e despediu-se. Não se pode esperar infinitamente pelas as palavras dos outros. Saiu dali convencida de que não havia nada a fazer. Andou em passo largo até casa, ultrapassou um jovem de calças descaídas com a roupa interior à vista. Ainda identificou os desenhos de umas gotas de água cinzentas. "Lágrimas?", passou-lhe pela cabeça. "Chuva ou lágrimas?". Quando chegou a casa, abriu o frigorífico, retirou um um iogurte liquido, fechou bem a porta e ligou o computador. Lá estava: um mail dele a contar tudo, tim, tim por tim, tim. Com os pormenores que ela jamais perguntaria. Escrevemos tanta coisa que não falamos. Falamos tanta coisa que nunca escreveríamos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

coisas que se estragam

Só se estraga o que era bom
e se era bom, funcionava
e se funcionava, era útil
e se era útil, faz falta
e o que falta é o que nos move.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Árvores na cidade

São precisas mais árvores na cidade.
Os troncos fortes agarrados à terra inspiram certezas.
As folhas sujeitas ao vento dão-nos a banda sonora, embalam.
Não sei porque não plantam mais árvores na cidade
se sobram canteiros vazios.
Uma árvore não pede para ser levada a passear todos os dias,
nem obriga a uma muda da areia regular.
A árvore é a coisa mais simples que há.
E os seus ramos sempre foram o meu sonho de braços


sábado, 21 de janeiro de 2012

no dia em que cresceu

Quando a Dulce se olhou demorada e profundamente ao espelho, como lhe desafiou a Marta a fazer, descobriu uma nova percepção difícil de aceitar. Era um pouco feia. Pelo menos, menos bonita do que se imaginava na maior parte do tempo dos seus dias. O espelho de manchas castanho dourado que tinha à sua frente mostrava-lhe traços desequilibrados. Se se visse de fora, será que se apaixonaria por ela? Lembrou-se da sua avó, do que lhe dizia vezes sem conta. Da avó que tinha dificuldade em dizer a idade, por achar que o número não lhe pertencia. Dulce nunca teve problemas com a sua imagem. Sempre actuou como se fosse dotada de uma beleza mediana ou acima da média, caso se comparasse com quem costuma ver no metro à hora de ponta. Aos olhos dos outros, a forma como a fitavam, confirmavam-no. Achava ela. Lá em casa, a perspicácia, a reacção rápida, energia, e boa disposição bastavam. A vitalidade e o humor é que interessavam. No dia em que se observou de outra maneira, cresceu.

Inverno

Os amores de Inverno duram mais. Ninguém quer sair cedo da cama. Nem que seja pelo quentinho das mantas ou edredon. E dá-se tempo.