terça-feira, 3 de agosto de 2010

Boa continuação

Inadequada. A frase não podia ser mais inadequada. Tal como uma vez foi o "olaréquicu" do Diogo, cantado em plena missa, na cerimónia fúnebre do seu avó. Fez eco na igreja. Ouviram-se risinhos! Agora, estava prestes a fazer-se ao caminho do seu carro, deixando para trás as horas de bloqueio, em que o tempo parou. Desliga sempre do seu quotidiano nos funerais. Desta vez, alguém lhe deu os pêsames por engano, lhe apertou a mão por engano, além de lhe ter dito a frase mais bizarra, dado o quadro triste. Ainda se viam as campas por perto e o senhor barrigudo de camisola colada ao corpo, por causa da transpiração, despediu-se com duas palavras: "Boa continuação".

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Querido mês de Agosto

O seu primo mais indie surpreende a cada fala. Bárbara ouvia-o atentamente mais uma vez. Tinha-o o visto ao longe, de pernas ligeiramente abertas e braços cruzados, observando o pesar de todos os que se despediam do ente querido falecido. A conversa deu-se depois, a uns bons metros do portão de ferro do cemitério. Contou-lhe ele que a última vinda a Portugal - vive em Paris - foi para ajudar o Manel, com quem se dá bem desde miúdo e mantém contacto. Veio para o ajudar, pois um amigo comum telefonou-lhe para lhe dizer que o Manel ameaçava suicidar-se por causa da ideia do divórcio e da separação da filha que isso implicava. Não pensou muito, enfiou-se num avião e veio. Passou uma semana com o Manel. Falaram muito. "E o que aconteceu?", perguntou Bárbara. "O divórcio foi para a frente. E a ex-mulher surpreendeu-o em relação à filha. Fez de tudo para que esta se ressentisse o menos possível".

domingo, 1 de agosto de 2010

Jardim da Celeste

Pedro meteu-se na roda da conversa para dizer à Celeste: "A primeira vez que te vi estavas com os olhos colados ao ecrã da televisão a ver bailado. Perguntei-te então se gostavas de ballet". Elevando os olhos, Celeste mostrou-se mais atenta. Prosseguiu o Pedro: "Disseste que gostavas de ser bailarina". Eram dois miúdos. Passaram 30 anos desde esse episódio. Celeste e Pedro pouco se vêem hoje em dia. A conversa daquele grupo tinha começado por aí. Não tem havido casamentos, encontram-se em velórios. Era o funeral de um vizinho comum lá da aldeia. Celeste contou então que levou o filho para o ballet por causa da oportunidade que não teve. Pedro tem duas filhas gémeas que também andam no ballet: "Mariana tem jeito, tem um bom pezinho, segundo diz a sua professora". Celeste está hoje casada com o namorado de sempre, o tal que era alvo de contestação por parte de toda a família. Ricardo fumava, bebia, gostava de farra. E ela passava muitos fins de semana fora com ele. Havia na aldeia quem a visse como uma vadia. Os anos 80 não poupavam as mulheres mais livres. Mas Celeste sobreviveu aos olhares conservadores sem rancor algum. Via-se isso agora. O seu filho, porém, não aguentou a pressão dos amigos e, aos 13 anos, desistiu do ballet.

sábado, 19 de junho de 2010

That´s life

Na tentativa de encontrar o helicóptero, o miúdo levantou a cabeça (ouvia-se o barulho do aparelho a aproximar-se). De seguida, atirou um beijo para o ar e disse:"Adeus Saramago. É a vida!". A irmã que o levava pela mão deu-lhe uma esticadela e apertou-lhe a mão. Eu estava mesmo ao pé, ou à beirinha como dizem lá em cima. Tinha sete, no máximo oito anos e pouco deve saber da obra e muito menos do homem. Mas disse aquilo. Quando liguei a televisão e vi a chegada do corpo embrulhado no caixão, a cena com o gesto do miúdo impôs-se. Como me disseram no outro dia: as pequenas coisas são as que importam, as grandes são para toda a gente.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O triângulo amoroso

Mário apareceu saltitante na caixa do Multibanco. Cumprimentou a Mafalda e começaram logo a falar interrompendo-se pelo meio um ao outro. Observação número um: eram muitos palradores. Conversaram sobre o Jazz ao centro, em Coimbra, da digressão dele pelos Estados Unidos. Enfim, falaram, falaram. Até se balançaram um pouco quando recordaram a ida a Évora. A viagem foi animada, com o carro cheio de gente e os cds do Hugo de música indie. Rita ouvia atentamente. Entretanto, um grupo de três pessoas aproximou-se e uma delas barafustou: "Mas vão ao multibanco ou só estão a conversar?". A resposta do Mário foi certeira: "Não vamos a lado nenhum".

Cartas com números

"Hoje em dia, abre-se a caixa do correio e só se encontram contas para pagar. Cartas de amor, as ridículas, as especiais que nos faziam subir às nuvens em três segundos, são raras. Pode-se usar a net, é certo, mas não é a mesma coisa. Para uns, pode haver aqui uma evolução. Afinal, no mesmo instante sei que a outra pessoa está a ler o que eu escrevi. A tensão em tempo real, bem explorada, tem um potencial gigantesco", dizia a Ana. "Já me passei com o Zé assim", reagiu prontamente a Dulce. "Ninguém quer saber da tua vida íntima", atirou Maria. Bem dispostas, continuaram a conversa no andar de cima do Bica-me. "Haverá ainda muito por fazer neste domínio. Afinal, ali damos sinal de que estamos vivos para alguém. Os que seleccionam criteriosamente os amigos no facebook ou no gtalk conseguem ter ali uma vida social dupla, ou fortalecer a real, fraquinha que anda pela falta de tempo", prosseguiu a Ana. O mote da conversa tinha sido dado pela Laura. Laura tinha recebido uma carta manuscrita do seu ex-namorado Luís. "Foi uma pena que viesse tarde", começou por contar ela. "Estava a gostar de estar com ele, mas ele ainda não se tinha libertado da ex-namorada e trocou o meu nome pelo dela três vezes". Depois, contou ainda, por azar, a ex-namorada tinha o nome da sua chefe. "Havia muito eco"

domingo, 2 de maio de 2010

Mandar à fava

Maria Cristina é filha de pais divorciados. Ainda hoje quando ouve gritos - tinha oito anos quando estes resolveram pôr cobro à vida em comum - fica perturbada. Não gosta. Em sua casa, fala-se baixo. Prefere o computador à televisão, também por causa do silêncio do Mac. A sua maior fantasia sexual é seduzirem-na enquanto lê um livro. Maria Cristina não consegue ter um namorado por muto tempo. Josefa teve influência contrária. Os pais eram um pouco hippies e sempre se deram bem. Notava-se que a ternura prevalecia nos momentos mais difíceis. O exemplo era positivo. O olhar embevecido que uma vez ou outra viu da mãe para o pai ou no sentido inverso era claro. Não foram feitos um para o outro, não era isso, ninguém o é, mas ficavam muito bem juntos. Bem, Josefa não consegue ter uma relação que avance além dos seis meses, pois o seu patamar de exigência é muito elevado. Dulce, por seu lado, cresceu com os avós maternos. E as suas relações são sempre curtas. Por causa deles. Eles perdem a paciência. É uma mimada. Luísa foi educada por uma tia e está a preparar o discurso para mandar o Tiago à fava. Simplesmente, está farta de se fazer passar por parva.

Bendita traição

Era a apologia da traição. Estava um frio difícil de suportar. As mãos foram parar ao rabito. Ao servirem de almofada, conseguiam manter-se quentes. De resto, a luz na esplanada estava óptima. Brilhante. Bem, voltando à traição, Júlia estava mesmo convencida de que a chave para os seus problemas foi aquela facadinha no namoro de três anos. "Fez-me ver o quão desequilibrada e cómoda era aquela relação. Uma traição é uma prova de fogo. Ou ficas ou vais embora". Ouvia caladinha, enquanto tentava que o frio não me desconcentrasse. Prosseguiu: "Foi óptimo. Em primeiro lugar estão os sentimentos, com tudo o que de misterioso e estranho que às vezes trazem agarrado. Assim fiz. Valeu a pena". E culpa, a sensação de culpa?. Respondeu ela: "Senti-me livre, por causa daquela coragem". Fez-se um silêncio. "Sim, e correu tudo bem". E então? "Fiquei com o Zé". Atirei: "Não tiveste coragem de deixar tudo para trás e tentar com o Pedro?". "Não gostei o suficiente dele para isso; há ali qualquer coisa que não bate certo. Não te sei dizer o que é. Mas quando cheguei a casa, agarrei-me ao Zé, anichei-me nele, e contei-lhe". Contaste? "Contei sem proferir uma palavra, disse-o mentalmente". Fechei o capítulo apenas com a frase audível:"Vou ficar contigo pelo menos até ao Natal". Ele riu-se e eu pulei na cama.

domingo, 21 de março de 2010

Um beijo difícil

Assim se cantava no filme: "Poder ver-te, é poder amar-te, e eu vejo-te em toda a parte, no passeio no café". Revia a obra prima e não me lembrava de ter reparado naqueles versos. Clássicos, claro. Simples também. Como andava a pensar na carta que lhe escreveria, achei que podia ir ali buscar a inspiração. Depois, fui à procura de vistas largas, esplanadas que nos tragam o mundo aos olhos, e juntei um facto só nosso. Tinha vários micro episódios por onde escolher, mas optei pelo beijo difícil. Afinal, não sabia como iria funcionar. O interior da boca tinha uma teia de arames e provavelmente ele nunca teria encontrado um céu da boca assim. Já para não falar nas massas ao interior dos dentes. Quando parámos de nos beijar, ele disse: "Vamos comer o resto do bolo de maça a tua casa?".

segunda-feira, 9 de novembro de 2009