quarta-feira, 17 de abril de 2013

casa despida

cortinas na máquina de lavar

reunião de condomínio

- pagamos imi de valor diferente por este prédio ter sido construído ao contrário.
- ao contrário?
- tem datas de registo diferente, foi o que me disseram das finanças.
- os mais antigos são os terceiros andares?
- parece que sim. Foi construído a partir do telhado.
- de cima para baixo?
- sim, é um mistério. Mudemos de assunto, preciso de voltar para Marrocos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

água

Há quem precise de banhos de imersão
prefiro poesia

sexta-feira, 5 de abril de 2013

segundos

cheiravas a verão
que raio de pele
mais irresistível
tinhas
fervilhava de vontade
de uma dentada
e receava que o lesses
nos meus olhos transparentes
medrosos
cerrei-os segundos
para que não visses
sinais
abri-os
estavas tu
de olhos bem fechados

pomar das laranjeiras

Sempre soube que um dia
escreveria sobre o pomar
hoje não consigo
hoje não consigo
escrever sobre o pomar
hoje não consigo
falta músculo
sempre soube que um dia
escreveria sobre o meu pomar
hoje não consigo
teria de puxar
pela memória
está perra
voltar atrás
aos momentos chave
ao dia do diagnóstico
da doença
à decisão de te arrancar
da minha cabeça
e de fugir, não me largavas
hoje não consigo
hoje não consigo
hoje como laranjas


vida dupla

quando os sonhos se sucedem em episódios, estaremos doentes? Assim rola há 15 dias. Envolvem duas, três pessoas. A acção é divertida e bastante realista. Nada se assemelha a pesadelos. Cérebro, cérebro meu, de que tipo de férias precisas, diz-me lá. estou a tomar notas.

baloiço

ruy belo que me perdoe o atrevimento de escrever sobre o vento. A perfeição pertence-lhe nesta área. Mas no dia em que hoje estamos há roupa estendida nas cordas em qualquer lado para que eu me vire, e de tanto a fitar, ganhei vontade de me transformar numa das peças. são sacudidas, apanham sol, esticam-se nos pequenos intervalos, baloiçam. Dançam nas traseiras dos prédios, depois de um inverno prolongado, pessimista.

terça-feira, 26 de março de 2013

melro

Um melro à minha porta,
quase ao pé da estação
bico amarelo
corpo negro
andava ali de um lado
para o outro
de um lado para o outro
de um lado para o outro
levei comigo a sua imagem
descarrego-a aqui

sábado, 23 de março de 2013

frio de março

Passado três meses, arranjou coragem para espreitar a página de Facebook dele. Cumpriu direitinho a auto-imposição. Na última semana foi custoso. Chegou a hora de ver, encarar a desaire e andar noutra direcção. Lá estava ela, a nova namorada. Seguia o padrão. Morena, um pouco ruiva, sardenta, pose insegura mas elegante, perna alta, queixo e nariz bem desenhados. Parecida comigo.

frio de janeiro

Sentou-se à frente dela e colocou as mãos em cima da mesa. Estava frio na esplanada do Museu de Arte Antiga. Ela estremeceu um pouco, mas resistiu a comentar a temperatura do primeiro dia de primavera. Não queria ser vulgar naquele momento. Pressentiu, de imediato, que iam dar-lhe tampa. Falou de coisa nenhuma até mencionar as parecenças com a sua irmã mais velha. Vinham-lhe à cabeça de vez em quando e por isso não conseguia continuar. nem mais um beijo. acabaram-se os bilhetes na bicicleta. As linhas do nariz e do queixo tinham o mesmo desenho, dizia. na cabeça dela fez-se um pensamento tolo. Eça de Queirós, Eça de Queirós: teriam o mesmo pai?