sábado, 23 de março de 2013

frio de janeiro

Sentou-se à frente dela e colocou as mãos em cima da mesa. Estava frio na esplanada do Museu de Arte Antiga. Ela estremeceu um pouco, mas resistiu a comentar a temperatura do primeiro dia de primavera. Não queria ser vulgar naquele momento. Pressentiu, de imediato, que iam dar-lhe tampa. Falou de coisa nenhuma até mencionar as parecenças com a sua irmã mais velha. Vinham-lhe à cabeça de vez em quando e por isso não conseguia continuar. nem mais um beijo. acabaram-se os bilhetes na bicicleta. As linhas do nariz e do queixo tinham o mesmo desenho, dizia. na cabeça dela fez-se um pensamento tolo. Eça de Queirós, Eça de Queirós: teriam o mesmo pai?

não é

há palavras por inventar e queria trazê-las aqui. Como chamar à empatia fina sentida por um quase desconhecido? não é amor, que sei bem o que isso é. Provei-o cedo, minha cara amiga. Divorciei-me cedo, camarada. não é amor porque esse faz ser mais tolerante do que é costume e aceitar o que por regra faz mal. Fumei por amor, é verdade. Bebi absinto por amor, um dia conto-te essa história. conduzi a 200 Km/hora por amor, meu Deus. há palavras que não servem para o que queremos dizer porque somos mais do que matéria e cinzas. Metafísica? Põe metafísica nisso. o mistério não está no amor. esse, quando está lá, bate forte que nem trovoada em tempo seco algures no alentejano. O mistério está na incerteza. em tudo o resto que não é amor.

antes do amor

antes do som
antes do amor
depois da música
depois do jantar
os primeiros dez minutos
de conversa são sempre
para deitar fora
jogam-se no lixo
em saco limpo
negro, brilhante, a estrear
antes da doença
depois da cura
antes de cozinhar
depois do banho

migalha

era uma migalha na vida dela, dizia. Dedicou-lhe duas horas de conversa.

balão

comeu vento
encheu-se de ar
e voou

osso

Agarrou-se a ele.
Era magro, osso e osso,
conseguiu perceber
o desenho dos
omoplatas.
ainda hoje se lembra disso,
omoplatas

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

fazer o pino

Fomos passear, deitar conversa fora. Deu-se o inverso. Vieram as palavras todas para dentro. Ficou cheia delas. Decorou cada frase como se fosse um verso eterno. Não lhe saíam da cabeça. Teve de fazer o pino.

eixo

Apesar do frio que estava lá fora, estava quente no eixo principal. Deslocou o equilíbrio para a zona abaixo do peito, ligeiramente acima da barriga, e a sequência dos acontecimentos alterou-se. Os problemas eram exactamente os mesmos. o ponto para eles é que era outro.

parva

Como estás?
Estou parva.
Neste momento?
Há dias.
Isso passa?
Demora.
Como começou?
Depois do acidente.
Então?
Desisti.
De quê?
De controlar.
O quê?
A minha vida
Toda ela?
A que vier

levitar

A conversa sobre a neve não é uma conversa sobre o tempo. A neve é outra coisa. Tal qual tu.