sexta-feira, 20 de setembro de 2019

muletas

vou andando
com muletas

grito

As vezes tenho um verso preso na garganta
como se fosse um grito
uma massa que se enrola
em espiral, sem parar
Quando não arranjo maneira
de o deitar fora
Degrada-se e encolhe-se
Encolhe-se e degrada-se
Que nem bolo que abate
quando retirado do bolo
antes do tempo
o tempo
Como gostava
de não ter de gritar para dentro

parti o pé

Sinto falta do colo da minha filha

sorte a minha

tenho três orelhas
mas poucos sabem disso
duas pessoas
descobri anteontem
finalmente
a terceira é pequenina
e está escondida
mal se dá por ela
mal se ouve
perdida entre o pescoço
e a nuca

tenho três orelhas
e ouço sempre os pássaros

torradas

voltei,
voltei porque gosto de voltar
voltar implica começar de novo
casa de partida
jogo de tabuleiro
deixar nascer uma oportunidade
voltar acontecerá sempre
numa limpa manhã de pleno céu azul
numa manhã fresca, ligeiramente ventosa
de ar respirável, bom
uma manhã com poucos carros na estrada
e torradas em cima da mesa

sexta-feira, 23 de junho de 2017

jardim particular

árvores da minha vida
cantos da minha estante
que seria de mim
se não vos tivesse como antídoto
para a minha ansiedade


de qualquer modo

a razão da discussão está sempre no exagero
palavras aos gritos
sinceridade a mais
temperaturas acima dos 40 graus
ou frio de gelar o cérebro
de qualquer modo,
como é belo o ataque
quando a fúria faz sentido
e as palavras se tornam importantes
e os sujeitos pessoas reais
defeituosas e amargas
sensíveis e desejosas
mais humanas
do que em frente ao ecrã



quinta-feira, 22 de junho de 2017

ataques de ciúmes

José veste calças e camisolas dos anos 80. O estranho daquela indumentária é que os tecidos têm bom aspecto, ao contrário dos cortes. As calças são ligeiramente à boca de sino; as camisolas largas e desproporcionais e as cores vivas e brilhantes. Um dia perguntei ao seu vizinho de secretária porque é que o José se vestia de uma forma tão desenquadrada, fora de época. Parece que há duas boas razões para se apresentar ao mundo dessa forma. Herdou um armazém de roupa do avô, que era proprietário de uma rede de lojas tradicionais. Dois: desde que começou a usá-las a namorada curou-se, curou-se dos ataques de ciúmes.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

lá fora

vou só ali ver o que não está aqui. há sempre esperança lá fora

rir para dentro

o meu namorado diz que as minhas piadas o fazem rir para dentro. as dele são melhores, defende, blá, blá, recorrendo a argumentos rebuscados, porque as dele fazem rir para fora. Gosto das dele, não posso dizer o contrário, porque é a mais pura das verdades, mas gosto também das minhas. as minhas piadas comem-se.