domingo, 29 de março de 2015
dois papagaios
Tinha a cabeça a fervilhar. Sentia a panela de pressão no interior da caixa craniana. É uma caixa, meus senhores, dura como o cimento, mas é uma caixa. Tinha a cabeça a fervilhar porque de repente percebeu o quanto a sua vida ia mudar. Caíam as peças e não sabia se tinha forças para as conseguir agarrar no colo. E depois de as agarrar, saberia juntá-las, encaixá-las? Lá ia de cabeça a fervilhar quando ouviu a conversa de pássaro. Conhece-a bem.Tem um jardim nas traseiras, são a música do seu acordar. Estavam dois papagaios em cima de dois ramos na avenida de Liberdade, que há só uma, verdade, e um misto de certeza e impulso brilhava. Daquele brilhar que sai cá para fora. Que quer liberdade.
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dois papagaios
Tinha a cabeça a fervilhar. Sentia a panela de pressão no interior da caixa craniana. É uma caixa, meus senhores, dura como o cimento, mas é uma caixa. Tinha a cabeça a fervilhar porque de repente percebeu o quanto a sua vida ia mudar. Caíam as peças e não sabia se tinha forças para as conseguir agarrar no colo. E depois de as agarrar, saberia juntá-las, encaixá-las? Lá ia eu de cabeça a fervilhar quando ouviu a conversa de pássaro. Conheço-a bem. Tenho um jardim nas traseiras, são a música do meu acordar. Estavam dois papagaios em cima de dois ramos na avenida de Liberdade, que há só uma, verdade, e um misto de certeza e impulso me fazia brilhar. Daquele brilhar que sai cá para fora. Que quer liberdade.
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segunda-feira, 3 de novembro de 2014
canta por aí
como canta bem aquele papagaio. adoptei-o, mesmo sem nunca o ver. Não importa se é feio. Feio é o que repugna e ele jamais repugnará. Foi banda sonora das noites quentes. adoptei-o mas nunca lhe pus o olho em cima. Como canta bem e enche o beco maior das redondezas. enche a rua, o bairro. não importa se é bonito. canta, afinado, melodias diferentes a cada dia, por vezes deixa notas perdidas, deixando o desfecho por fazer. falta o quanto falta. Imagino-o ternurento.
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vai lá
conseguiu colocar a mão inteira dentro da boca. O mundo dentro da boca. as impossíveis que morrem a cada dia que passa, os possíveis que desvanecem, a esperança matemática
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domingo, 2 de novembro de 2014
depois de
finalmente, o frio. Finalmente, os dias curtos para os pensamentos compridos. finalmente, as malas e chapéus. finalmente, a dança lenta. finalmente, um copo de vinho do douro como deve ser. finalmente, outra década, cheia de árvores e vistas largas. finalmente, uma certeza de um milímetro.
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quinta-feira, 23 de outubro de 2014
novo banco
Preciso tanto de um banco de jardim portátil
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o contrário de surda
hoje apetecia-me ser surda. O barulho dos carros entrava-me ouvidos dentro, sentia o trânsito a pulsar dentro de mim e qualquer som de buzina parecia um ataque, sem que me conseguisse defender. A vida de fora veio de enxurrada via canais laterais, ocupando grande parte do espaço mental. Os pequenos vazios estavam a ser invadidos. Os grandes vazios tinham sido substituídos pelos pequenos vazios. A substituição foi-se fazendo nos últimos anos, à medida que fui ouvindo melhor. tenho este problema e não sei como lhe chamar.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014
corrida de barco
deixo-te uma folha em branco para nela imaginares um barco de corrida. Coloca-a na banheira e vê para onde vai. estará mal feito se não sair do lugar. o lugar não se quer mal feito.
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intenso
só amo o que conheço
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alma do sapato
não posso cortar-lhe o salto, insistia o sapateiro. Mas se lhe peço para o fazer pela segunda vez. A alma do sapato não aguenta, explicou. A meio do sapato existe uma estrutura, chamada alma do sapato. cortando o salto, fica espaço em falta. e o vazio fica sem nada. falta-lhe apoio. Ora, esta alma do sapato em particular precisa de um salto. pode ser mais pequeno, mas tem de estar lá. a alma do sapato não cede a vontades do dia.
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