quinta-feira, 2 de outubro de 2014
intenso
só amo o que conheço
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quinta-feira, outubro 02, 2014
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alma do sapato
não posso cortar-lhe o salto, insistia o sapateiro. Mas se lhe peço para o fazer pela segunda vez. A alma do sapato não aguenta, explicou. A meio do sapato existe uma estrutura, chamada alma do sapato. cortando o salto, fica espaço em falta. e o vazio fica sem nada. falta-lhe apoio. Ora, esta alma do sapato em particular precisa de um salto. pode ser mais pequeno, mas tem de estar lá. a alma do sapato não cede a vontades do dia.
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segunda-feira, 23 de junho de 2014
café
que belas
são as manhãs
as tardes são agitadas
as manhãs não querem
nada com ninguém
deixam cada um
à sua mercê
só,
em cima dos sapatos
enquanto as
ideias pairam
solteiras
não bailam
mas fazem alongamentos
lentos
até ao café
e assim chega a tarde
voilà
são as manhãs
as tardes são agitadas
as manhãs não querem
nada com ninguém
deixam cada um
à sua mercê
só,
em cima dos sapatos
enquanto as
ideias pairam
solteiras
não bailam
mas fazem alongamentos
lentos
até ao café
e assim chega a tarde
voilà
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nódoas
a toalha ficou cheia de nódoas
o vinho entornou
a telha caiu
e partiu-se
deu lugar a pedaços
o chão da cozinha
estava manchado
bolas espalmadas
o contrário
do dia imaculado
cheio de vento
das exposições de roupa
pendurada em molas
amarelas
nas varandas
lavada de fresco
a cheirar a novo
a limpeza
antes da
corrida
depois de mim
o vinho entornou
a telha caiu
e partiu-se
deu lugar a pedaços
o chão da cozinha
estava manchado
bolas espalmadas
o contrário
do dia imaculado
cheio de vento
das exposições de roupa
pendurada em molas
amarelas
nas varandas
lavada de fresco
a cheirar a novo
a limpeza
antes da
corrida
depois de mim
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quinta-feira, 29 de maio de 2014
reconciliação
Divorciei-me de mim. Foi duro. Tive de voltar a correr, pensar como se fosse adulta, cortar no chocolate. No prato, apenas saladas. Aguentei-me uns dias. poucos. Pareceram semanas de sete dias de trabalho de enfiada. Estava na altura de vir ter comigo e assim fiz. Não falamos. Ficamos ali.
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quinta-feira, 8 de maio de 2014
laranjas
Tinha uma atracção por salpicos, pirolitos e afins. Pequenos, mínimos, quase nadas. A sua história preferida inclui uma princesa e uma ervilha. A viagem mais marcante contou com o conhecimento de pessoas novas, uma delas quase sem dentes, apenas um na boca inteira, vendedor de laranjas redondas até mais não. Florival, seu nome, mostrava as gengivas, e não terminava as frases. Perdia-se antes da chegada do predicado. Era um falhado, disse. Assumido. Uns são gays, ele era falhado, atirou enquanto guardava a nota de cinco euros. Chegou a viver no Brasil, ainda passou por Angola. Viu gente de todas as cores. Jantou em mesas cobertas com toalhas chiques e talhares de inox. Deitou-se e adormeceu sendo amado mais de uma dezena de vezes. Este era o seu passado. Não teve descendentes. Foi despegando-se dos outros depois da primeira visão. Hoje vive em Silves e vende laranjas.
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domingo, 23 de março de 2014
conserto
era frágil
partia-se com facilidade
bastava uma palavra
num tom áspero
um grão de areia
na língua
mas não se sentia
frágil
por dentro
tinha órgãos
sólidos
eficazes
funcionavam
era frágil
partia-se com facilidade
é certo
ficava em pedaços
soltos
um para cada lado
depois, de repente,
compunha-se
não se colava
somente
de cuspe
partia-se com facilidade
bastava uma palavra
num tom áspero
um grão de areia
na língua
mas não se sentia
frágil
por dentro
tinha órgãos
sólidos
eficazes
funcionavam
era frágil
partia-se com facilidade
é certo
ficava em pedaços
soltos
um para cada lado
depois, de repente,
compunha-se
não se colava
somente
de cuspe
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quinta-feira, 13 de março de 2014
pirolito
Querer que o bom seja muito bom
não é ser exigente
apenas vibrante
de que servem rotinas?
economizam energia
nada mais
meu amor,
não te afogues nelas
acorda, pirolito
que o oxigénio te tome
o cérebro
vai lá correr, mas mais sozinho
não é ser exigente
apenas vibrante
de que servem rotinas?
economizam energia
nada mais
meu amor,
não te afogues nelas
acorda, pirolito
que o oxigénio te tome
o cérebro
vai lá correr, mas mais sozinho
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espera
chego antes da hora
sempre foi assim
o prazer da espera
do tempo para me concentrar
de parar antes de arrancar
antes do filho
sempre foi assim
o prazer da espera
do tempo para me concentrar
de parar antes de arrancar
antes do filho
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preto e branco
Com um piano à minha frente
tenho de ouvir
contigo à minha frente
tenho de tocar
tenho de ouvir
contigo à minha frente
tenho de tocar
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quinta-feira, março 13, 2014
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