domingo, 23 de março de 2014

conserto

era frágil
partia-se com facilidade
bastava uma palavra
num tom áspero
um grão de areia
na língua
mas não se sentia
frágil
por dentro
tinha órgãos
sólidos
eficazes
funcionavam
era frágil
partia-se com facilidade
é certo
ficava em pedaços
soltos
um para cada lado
depois, de repente,
compunha-se
não se colava
somente
de cuspe

quinta-feira, 13 de março de 2014

pirolito

Querer que o bom seja muito bom
não é ser exigente
apenas vibrante
de que servem rotinas?
economizam energia
nada mais
meu amor,
não te afogues nelas
acorda, pirolito
que o oxigénio te tome
o cérebro
vai lá correr, mas mais sozinho

espera

chego antes da hora
sempre foi assim
o prazer da espera
do tempo para me concentrar
de parar antes de arrancar
antes do filho

preto e branco

Com um piano à minha frente
tenho de ouvir
contigo à minha frente
tenho de tocar

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

barriga para baixo

verde pinho na camisola. Combina com as férias no campo. o frio daquela manhã. o tempo perdido na aldeia onde não havia relógios. Os telefones ficaram no carro de barriga para baixo. o pequeno almoço improvisado e à base de marmelada. um puro café de cevada.

outra

deixa-te ir. quando deres por ti, és outra.

elogio da metade

Não sei porque queremos tudo se podemos ter metade. A metade da laranja é sempre melhor que a laranja inteira. Os gomos mais saborosos. O dia é bem vindo dividido por partes. Dormimos numa, funcionamos na outra. Percorrer uma avenida inteira é uma canseira. Fazer Moscovo a pé é uma canseira. Queremos respostas absolutas, quando o que fica se reduz a uma ideia solteira. Obter metade é ganhar a melhor parte.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

bem cozido, sff

tomei banho de chuva e lavei os pés com sopa. também ganhei uma almofada de trigo no dia do meu aniversário. é pequena e pode aquecer-se no micro-ondas. da cozinha ao quarto vai deixando um cheiro a pão acabado de sair do forno.

passagem

antes que a noite caia, levanto-me para ir. não quero ser esmagada pelo temporal. ficar espalmada. fujo para um canto seguro. escondo-me dos relâmpagos. da luz. prefiro o lusco-fusco ao fundo do túnel.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

please

mais sossego, se faz favor, vai a passar um pensamento maduro